Virginia Alice C. R. Fernandes de Oliveira

Chegou trazendo, no mínimo, um tempo inusitado. Tenho vivenciado, com muita objetividade, o ditado que diz: “É importante viver um dia de cada vez”.
Nesse tempo em que, mais do que nunca, estamos conectados, deparo-me com a seguinte mensagem: “Éramos todos humanos, mas a religião nos separou, a política nos dividiu, até que um vírus nos igualou.” Um tempo que nos impõe o recolhimento, para desejar e praticar o acolhimento; um recolhimento que provoca e que impõe, involuntariamente, a reflexão. Um tempo para vivenciar o desapego, e também para diferenciar o desapego do abandono. Nossos planos foram colocados em stand by; a vida apertou o botão da nossa função reset.
Temos vivido a experiência com os opostos: a incerteza que espera encontrar caminhos que nos façam vislumbrar certezas; a paciência e a serenidade que precisam acalmar o desespero; a solidariedade que aquece o coração para fazer adormecer o egoísmo; a necessidade de paralisar o “lá fora” para colocar em movimento o “aqui dentro”.
Redescobrir, reinventar, reconhecer, reparar, reestruturar, reescrever, revigorar, reatar e refletir são conceitos que afloram numa necessidade premente para que caminhos surjam. A vida leva-nos a escolher entre: tudo o que vale a pena e aquilo que é importante para poder continuar.
Sim, esse momento faz parte da vida! Já vivemos isso outras vezes; porém, foi na individualidade, em pequenos grupos, em escala muito menor. Hoje, não! Hoje é uma vivência que se propaga no mundo inteiro, não importa a raça, a idade, o gênero, a faixa econômica, a crença, o regime político, o clima ou a cultura. Todos os seres humanos – e só os seres humanos – foram diretamente colocados no mesmo barco, na mesma condição. Temos que escolher remar juntos ou deixar o barco à deriva.
Muitas cabeças, muitas tentativas, muitos acertos, muitos erros, muitas incertezas… É sempre uma experiência que nos coloca frente a um imenso vazio. O silêncio ocupa um espaço; em determinados momentos, isso parece insuportável, e precisamos revisitar nossas experiências para encontrar razões para continuar.
De repente, reencontramos um processo da natureza: para nascer, a semente precisa secar e ser colocada no escuro, a terra precisa lhe promover a escuridão e a umidade necessárias para que a sua casca apodreça e rompa-se. Essa condição precisa ser vivida para que o broto possa surgir e ter força suficiente para sair em direção ao Sol. Depois desse estresse interior, o broto desabrocha e vai fazer parte do seu habitat. Para que o processo aconteça, a semente precisa romper a casca sozinha, num movimento de dentro para fora, numa fase solitária para encontrar o seu espaço. Porém, para esse processo acontecer, é preciso contar com a sombra de outras árvores próximas, com o húmus provido pelos microrganismos que habitam a terra ao redor, com o Sol do dia que fornece a luz e o calor, com a falta dele à noite que possibilita o orvalho ao amanhecer, com a chuva que permite a condição de armazenar a água necessária…
Assim, é também frente a uma solidão – que podemos definir como sofrimento – que a vida faz surgir uma orquestra, repleta de diferentes instrumentos, com a harmonia promovida por um maestro que não deixa jamais seu posto. É essa experiência que mostra que não estamos sozinhos e que vivifica categoricamente a coexistência.
Frente ao pedido: #fiqueemcasa, diante do clamor para estar separados, todos são colocados na mesma posição. Estando no aconchego do nosso lar, percebemos as necessidades de quem não tem o aconchego, de quem não pode ficar no aconchego, de quem sofre porque precisa sair do aconchego para se curar; percebemos a necessidade da liberdade, da qual precisamos abrir mão. Tudo isso nos faz compreender que precisamos estar separados para experienciar a importância de nos juntar. Juntar para criar as condições para enfrentar, para superar, algo invisível que exigiu que esvaziássemos as ruas, as praças e os parques, os shoppings, as igrejas, os clubes, os bares, os shows, os espaços que nos unem e que promoveu em nós um mergulho que pode nos trazer a possibilidade de nos encontrarmos novamente, ressignificando o encontro, a empatia e o outro, e tendo a certeza de que o planeta não é só dos humanos; aliás, sem a nossa participação, ele se renova, limpa e purifica a si mesmo.
Que essa experiência nos traga, de fato, uma qualidade de valores que promova a vida, a fim de estarmos mais envolvidos com o que nos une, com o que nos coloca em conexão, com o que nos integra a essa cadeia planetária, a qual propicia e assegura a continuidade da vida.










