E o ano de 2020 chegou…

Virginia Alice C. R. Fernandes de Oliveira

Chegou trazendo, no mínimo, um tempo inusitado. Tenho vivenciado, com muita objetividade, o ditado que diz: “É importante viver um dia de cada vez”.

Nesse tempo em que, mais do que nunca, estamos conectados, deparo-me com a seguinte mensagem: “Éramos todos humanos, mas a religião nos separou, a política nos dividiu, até que um vírus nos igualou.” Um tempo que nos impõe o recolhimento, para desejar e praticar o acolhimento; um recolhimento que provoca e que impõe, involuntariamente, a reflexão. Um tempo para vivenciar o desapego, e também para diferenciar o desapego do abandono. Nossos planos foram colocados em stand by; a vida apertou o botão da nossa função reset.

Temos vivido a experiência com os opostos: a incerteza que espera encontrar caminhos que nos façam vislumbrar certezas; a paciência e a serenidade que precisam acalmar o desespero; a solidariedade que aquece o coração para fazer adormecer o egoísmo; a necessidade de paralisar o “lá fora” para colocar em movimento o “aqui dentro”.

Redescobrir, reinventar, reconhecer, reparar, reestruturar, reescrever, revigorar, reatar e refletir são conceitos que afloram numa necessidade premente para que caminhos surjam. A vida leva-nos a escolher entre: tudo o que vale a pena e aquilo que é importante para poder continuar.

Sim, esse momento faz parte da vida! Já vivemos isso outras vezes; porém, foi na individualidade, em pequenos grupos, em escala muito menor. Hoje, não! Hoje é uma vivência que se propaga no mundo inteiro, não importa a raça, a idade, o gênero, a faixa econômica, a crença, o regime político, o clima ou a cultura. Todos os seres humanos – e só os seres humanos – foram diretamente colocados no mesmo barco, na mesma condição. Temos que escolher remar juntos ou deixar o barco à deriva.

Muitas cabeças, muitas tentativas, muitos acertos, muitos erros, muitas incertezas… É sempre uma experiência que nos coloca frente a um imenso vazio. O silêncio ocupa um espaço; em determinados momentos, isso parece insuportável, e precisamos revisitar nossas experiências para encontrar razões para continuar.

De repente, reencontramos um processo da natureza: para nascer, a semente precisa secar e ser colocada no escuro, a terra precisa lhe promover a escuridão e a umidade necessárias para que a sua casca apodreça e rompa-se. Essa condição precisa ser vivida para que o broto possa surgir e ter força suficiente para sair em direção ao Sol. Depois desse estresse interior, o broto desabrocha e vai fazer parte do seu habitat. Para que o processo aconteça, a semente precisa romper a casca sozinha, num movimento de dentro para fora, numa fase solitária para encontrar o seu espaço. Porém, para esse processo acontecer, é preciso contar com a sombra de outras árvores próximas, com o húmus provido pelos microrganismos que habitam a terra ao redor, com o Sol do dia que fornece a luz e o calor, com a falta dele à noite que possibilita o orvalho ao amanhecer, com a chuva que permite a condição de armazenar a água necessária…

Assim, é também frente a uma solidão – que podemos definir como sofrimento – que a vida faz surgir uma orquestra, repleta de diferentes instrumentos, com a harmonia promovida por um maestro que não deixa jamais seu posto. É essa experiência que mostra que não estamos sozinhos e que vivifica categoricamente a coexistência.

Frente ao pedido: #fiqueemcasa, diante do clamor para estar separados, todos são colocados na mesma posição. Estando no aconchego do nosso lar, percebemos as necessidades de quem não tem o aconchego, de quem não pode ficar no aconchego, de quem sofre porque precisa sair do aconchego para se curar; percebemos a necessidade da liberdade, da qual precisamos abrir mão. Tudo isso nos faz compreender que precisamos estar separados para experienciar a importância de nos juntar. Juntar para criar as condições para enfrentar, para superar, algo invisível que exigiu que esvaziássemos as ruas, as praças e os parques, os shoppings, as igrejas, os clubes, os bares, os shows, os espaços que nos unem e que promoveu em nós um mergulho que pode nos trazer a possibilidade de nos encontrarmos novamente, ressignificando o encontro, a empatia e o outro, e tendo a certeza de que o planeta não é só dos humanos; aliás, sem a nossa participação, ele se renova, limpa e purifica a si mesmo. 

Que essa experiência nos traga, de fato, uma qualidade de valores que promova a vida, a fim de estarmos mais envolvidos com o que nos une, com o que nos coloca em conexão, com o que nos integra a essa cadeia planetária, a qual propicia e assegura a continuidade da vida.

Informação não é experiência

Laura Monte Serrat Barbosa

Há quase três meses, estamos recebendo informações, muitas informações… Chegamos ao ponto de recomendar, para si mesmo, assistir a apenas um jornal ao dia e a poucos vídeos, ler umas poucas mensagens no celular. Chegamos à exaustão, uma verdadeira intoxicação eletrônica!

Então, fiquei pensando em nossos alunos, nas pedagogias que se pautam na informação, e que não oferecem a experiência ou a possibilidade de reelaboração da experiência que, porventura, os alunos viveram em outros lugares; que não oferecem espaço para a articulação da experiência com o conhecimento já existente, nem oportunidade para o tecido de novos conhecimentos.

É informação atrás de informação, e também testes para ter certeza de que a informação foi captada. É muito cansativo para os aprendizes, assim como está sendo para nós. No entanto, para os aprendizes na escola, não há possibilidade de desligar a informação na hora do cansaço, nem a opção de escolher em quais informações focar, para transformá-las em conhecimento e em sabedoria, trançando-as com tudo o que já experimentaram em suas vidas. 

Nesse sentido, podemos pensar que uma nova pedagogia precisa considerar a experiência, além do experimento. A informação não é experiência, e o excesso de informação cancela a possibilidade da experiência; a informação é a experiência do outro, e não aquela que passa por aquele que a vivencia.

A experiência produz um saber, para além da informação, e é cada vez mais rara nesta época, na qual se confunde informação, conhecimento e aprendizagem. Quando nos informamos, emitimos opiniões sobre tudo, pensamos que dominamos aquele conhecimento; essa atitude de opinar, porém, também cancela as nossas possibilidades de experiência. Julgamos o outro, e não vivemos.

A experiência tornou-se raridade nos dias de hoje, e isso se deve, também, à questão tempo. O ritmo com que as informações são dadas, e logo substituídas por outras, torna nossa vivência instantânea, útil somente para aquele momento e, certamente, desconectada do que já sabemos e do todo do qual ela faz parte. O excesso de velocidade com que as vivências acontecem resulta na falta de silêncio e de memória, que também pode inibir a experiência.

Outro fator que torna a experiência rara é o excesso de trabalho; é a crença de que o sujeito de hoje precisa estar em movimento o tempo todo, produzindo, em ação constante, o que nos torna hiperativos e pouco disponíveis para parar e perceber o que nos passa, o que nos toca e o que nos  acontece, isto é,  o que de fato passa por dentro de nós.

A quarentena proposta com a chegada de um estranho ao mundo está nos convidando a receber muitas informações, gerando um cansaço que pode levar à irritação e a uma experiência distinta daquela que gostaríamos.  

Assim, nesse momento de convivência em família, além de selecionar as informações que receberemos, e de decidir em quais delas vamos nos focar, precisamos nos organizar, promover espaço para a experiência tanto do grupo familiar, quanto individualmente. É preciso refletir sobre as informações, conversar sobre elas, posicionar-se; é preciso organizar o tempo, de tal forma que haja momento para as memórias, para o lúdico, para o silêncio, para o compromisso e para o descanso.

A experiência possibilita distintos sentimentos, novos saberes e compromete-nos em relação ao mundo que habitamos, à nossa responsabilidade. Assim, neste momento de pandemia, não podemos só assistir informações, mas precisamos fazer, avaliar, digerir, refazer, ler, reler, pensar, refletir, repensar, conversar… Precisamos cuidar das formas de viver e conviver, transformando o jeito de aprender e ensinar!

Texto embasado nos estudos de Jorge Larrosa

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