SOBRE APRENDER

Simone Carlberg

Eu aprendo

Tu aprendes

Nós aprendemos

Aprendizagem é um PRO-CES-SO que ocorre na interação e na inter-relação entre pessoas e o ambiente. De dentro para fora e de fora para dentro. 

Em meio à pandemia, o verbo aprender tem sido conjugado em entrevistas, vídeos, mensagens escritas. Evidenciam-se tarefas cotidianas como novas aprendizagens: passar roupas; cozinhar; realizar várias tarefas de âmbitos diferentes em um mesmo ambiente; criar e organizar uma rotina; acompanhar e/ou preparar aulas on-line ou remotas; conviver 24 horas com familiares; coexistir em ambientes pequenos ou grandes; cooperar; dividir tarefas; acompanhar as crianças em suas necessidades: alimentação, sono, carinho, atividades…; ficar só; projetar cardápios, organizar as compras; planejar gastos; acompanhar notícias anunciadas em diversas telas; ponderar sobre o que é “verdade” e o que é enganação; organizar gavetas; lavar roupas; ler um romance e tantas outras. 

Exercitar estas aprendizagens pressupõe um estado de abertura para o novo, para o inusitado, muito embora, a lista de aprendizagens possa parecer de realização simples pode tornar-se complexa se não houver uma demanda interna.

Será preciso pensar em desejo. É preciso ponderar sobre o que é desejar? 

Bem, provavelmente todos desejamos que a pandemia passe…

Eu desejo, tu desejas, nós desejamos

E quando ela passar, possivelmente, muitos de nós estaremos modificados pela experiência e, se modificados, em outra condição de aprendizagem e não somente porque aprendemos a fazer coisas que não fazíamos anteriormente, mas sobretudo porque vivemos autenticamente esta experiência, que passou por dentro de nós num movimento de integração entre as dimensões do nosso SER (cognitiva, afetiva, funcional e social).

O conjunto das aprendizagens anteriores nos colocam à frente de uma nova experiência – o isolamento físico social – vivida em diferentes graus por cada um de nós.

Que possamos projetar a esperança em nossa nova condição de aprendizes, talvez com um maior grau de autonomia moral que implica em cooperação e respeito mútuo. 

Continuemos: eu aprendo, tu aprendes, nós aprendemos…

É o que temos para hoje…

Vera Lucia Germano Sicuro

Muitos pais que atendemos, quer seja na modalidade de Orientação de Pais, ou na de Terapia Familiar, ao se falar da necessidade e importância de colocar limites em seus filhos e ensiná-los a lidar com a frustração, respondem que esta é uma tarefa muito difícil, pois a vida não colabora…. Que, “antigamente”, as restrições eram reais, não havia tantos brinquedos, nem eram tão acessíveis; que não havia tanto acesso à mídia para criar desejos; que as refeições eram feitas em casa, com  produtos da estação, sem tantos restaurantes a quilo ou praças de alimentação onde cada um pode escolher o que desejar, até mesmo sem precisar esperar muito pelo preparo; que o acesso à TV, computadores e demais   eletrônicos era restrito, pertenciam mais ao mundo adulto,  muito diferente da realidade atual…. Estes pais sentem que precisam ser “artificiais” para ensinar a seus filhos as regras da sua casa, os hábitos, as crenças e o sistema de valores da sua família.

Agora temos um “motivo real, concreto” que não depende da vontade dos pais: a nossa pandemia.

Será que agora estes pais, terão suas dificuldades diminuídas, conseguirão ter argumentos suficientes para dizer a seus filhos que não é hora de ir ao cinema, ao shopping, ao parquinho (se ele estiver muito cheio), aos barzinhos, às baladas que são lugares de possíveis contaminações? Será que vão ter paciência de criar atividades, de dar significado ao estar em casa neste momento? Será que não vão deixar tudo como está, como se fosse um período de férias, com as crianças focadas só no prazer imediato?

Os pais precisam refletir sobre o que querem ensinar a seus filhos, crianças e adolescentes, na atual situação, como podem fazê-lo, de forma a que sua mensagem e as suas estratégias sejam constantes e coerentes.

Precisamos cuidar para não passar a mensagem de que a forma de preservar a população de risco, na qual possivelmente nossos pais estão incluídos, seja simplesmente deixar de visitar os avós…

Enfrentando desafios

Virginia Alice C. R. F. de Oliveira

É tempo de coronavírus! A preocupação com a doença toma conta de nós. Existem aqueles que estão preocupados com a higienização, com os cuidados para aumentar a imunidade; outros preocupam-se  com a saúde pública, querendo saber o que o governo está fazendo para cuidar da população frente a essa ameaça; tem aqueles que, sem se ocupar com as consequências, a qualquer custo, imaginam soluções e enchem as mídias com histórias que podem acabar espalhando o terror e o pânico.

 O envolvimento com a doença pode ficar tão grande que acabamos nos esquecendo da saúde. Buscamos a saúde e valorizamos a doença! Longe de estar dizendo que cuidados não são necessários, temos que nos cuidar e cuidar dos outros; porém, quero refletir a respeito de sermos filhos do imediatismo, da busca do furo jornalístico, da valorização do sensacionalismo.

– Tem mais um caso suspeito!

– Não é possível que os aeroportos continuem a receber as pessoas sem um plano de prevenção!

– Morreram tantas pessoas em tal lugar!

– Estão exagerando ou minimizando o problema?

– É o apocalipse!

– Vídeos espalham-se na mídia, mostrando pessoas desmaiando nas ruas sem socorro. Hospitais são construídos às pressas e preparados para receber os futuros doentes. Acabam-se as máscaras descartáveis, e o álcool em gel não é mais encontrado em lugar algum.

– É o fim dos tempos!

Claro que são momentos preocupantes, e não dá para agir como se não estivesse acontecendo nada. No entanto, espera um pouco!

É tempo de usar mais nosso tempo ao ar livre, de fazer piquenique, de fazer caminhada, de observar os pássaros, as árvores, as flores, as paisagens, os rios… Se o clima não permite, é tempo de ficar mais em nossa privacidade e aprofundar nossos relacionamentos. É tempo de tirar os jogos de tabuleiro das gavetas, exercitar a importância de vivenciar as regras, de estreitar os laços e afrouxar os nós. É tempo de sentar-se ao redor da mesa, de aprofundar o conhecimento sobre nós mesmos e sobre o outro, que está próximo a nós. É tempo de ouvir e ver também com o coração. É tempo de contar histórias da carochinha, histórias dos nossos antepassados, vasculhando fotografias. É tempo de reavaliar juntos os entulhos da casa, tudo que não usamos mais e é útil para tanta gente, o que precisa de um reparo para continuar sendo usado, trazendo alegria, brincadeira, aconchego, utilidade. É tempo de avaliar, no meio disso tudo, o que está pronto para ser usado: aquele CD que a gente nem ouviu ou curtiu tão pouco, aquele livro que ficou no cantinho, e também separar coisas que são mesmo descartáveis para nós e precisam ir para a reciclagem ou para a doação. É tempo de experimentar aquela receita que, há tanto tempo, está por ser feita e de cozinhar junto; a cozinha é espaço do afeto, é mais um lugar para vivenciar o dar e o receber.

É importante refletir.

Não seria esse um tempo de recolhimento e acolhimento? Um tempo de usufruir da solidão, mas não necessariamente de estar solitário? Um tempo para pensar na vida que pulsa como um coração; como um farol que pisca clareando caminhos? Um tempo para pensar na vida que se movimenta como as marés, como o anoitecer e o amanhecer; como as horas que passam, independente do nosso controle e do nosso comando; como as estações que chegam e vão, mais definidas em alguns anos e menos em outros.

Não seria esse um tempo de sincronizar as ações nesse processo da vida? Um tempo de envolver-se com os ciclos, de integrar-se às necessidades do momento? Um tempo de aprender com o que a natureza ensina, reconhecendo-se parte de uma cadeia, em que cada ação reflete uma ação, a qual transforma o todo e, assim, sucessivamente?

Se nos posicionarmos em direção à vida, se agirmos de forma a ir ao encontro dela, eu acredito que teremos muitas possibilidades de contribuir para enfrentar o momento, promovendo saúde; acredito que aprenderemos muito vivenciando situações que tragam eficiência para enfrentar problemas, que tragam conhecimento interior e experiência de convívio harmonioso, com prazer e alegria!

Converse com a gente!