TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC

Simone Carlberg

O Relógio

Vinicius de Moraes

Passa, tempo, tic-tac

Tic-tac, passa, hora

Chega logo, tic-tac

Tic-tac, e vai-te embora

Passa, tempo

Bem depressa

Não atrasa

Não demora

Que já estou

Muito cansado

Já perdi

Toda a alegria

De fazer

Meu tic-tac

Dia e noite

Noite e dia

Tic-tac

Tic-tac

Dia e noite

Noite e dia

Poema suave que nos remete ao universo infantil, talvez de outros tempos. Escrito por Vinícius de Moraes, publicado na década de 70 e também musicado. E, para o leitor que conhece a melodia, é possível ler cantando.

Foi escolhido como uma provocação inicial para pensarmos sobre tempo e sobre o tempo atual em distanciamento social.

Tempo como duração dos fatos (momentos, períodos, épocas, horas, minutos, segundos, dias, semanas, meses; passado, presente, futuro); tempo como momento atmosférico (outono, inverno, primavera, verão; temperatura; velocidade…).

Formulei a seguinte pergunta: o que é tempo para você?

Conversei com algumas pessoas e encontrei respostas interessantes como estas:

TS., um garoto de 3 anos, depois de formulada a pergunta, arregala os olhos e após um longo silêncio, diz: “não sei!”

Para T. uma garota de 8 anos “o tempo é… o tempo é… quando o sol nasce e se põe; quando os ponteiros do relógio batem meio dia; quando nós acordamos e dormimos, quer dizer, quando dormimos e acordamos no outro dia.”

E agora, em tempos de pandemia, o que você pensa sobre o tempo? Você pensa algo?

“Sim!  Parece que agora passa mais rápido, porque a gente não sai de casa!”  

Para J., uma jovem de 16 anos “o tempo… é algo incontrolável… O relógio marca a nossa rotina, estabelecida pelo ser humano. E o tempo de vida que a gente tem, é incontrolável! É um ciclo que ninguém tem controle, todo mundo passa, é geral e todos têm receio, já que não volta para trás, é sempre para frente e está envolvido com arrependimento, com vontade de aproveitar muito, cada vez, cada segundo.”

E agora, em tempos de pandemia, o que você pensa sobre o tempo?

 “Mudou! Principalmente em relação à rotina, muda tudo, a gente se enquadra numa rotina totalmente diferente…como o ser humano é controlável e manipulado, né? Alguém disse que era para usar máscara, e usamos! Alguém tem poder sobre tudo… Senti muito isto… me adaptar a fazer tudo dentro de casa. Mudou muito minha relação com meus pais e irmã, acho que foi bom até! Porque na rotina a gente perde tempo com outras coisas. Agora é ficar quieto.”

Entre os adultos consultados encontrei as seguintes reflexões:

“tempo é o espaço que determina a duração dos acontecimentos” (A. 59a);

“tempo são acontecimentos que geram em nós sentimentos, emoções, experiências e aprendizado. Tempo é muito relativo.” (S. 60a);

“para mim, o tempo é a contagem da vida. E, geralmente, ele vem com uma outra palavra junto: sem tempo; muito tempo, longo tempo, tempo curto, principalmente nessa pandemia.” (G. 60a);

“nesse momento de quarentena, desde 17 de março, praticamente isolada, mas nem tanto… tenho conseguido um tempo para me dedicar mais às artes. Aquele tempo que não passa, demoooora, e a gente consegue pensar, usufruir, refletir e devanear. E que tempo esse maravilhoso que ganhei e posso usá-lo de uma forma que nunca me permiti. O tempo parou e me fez frear também, bruscamente.” (V. 59a).

E no meu (da autora) tempo de pandemia, em minha rotina, está incluída a leitura e/ou a releitura de várias obras e, dentre elas, um livro de entrevistas cujo título é: Sobre o Tempo, organizado por Andréa Bomfim Perdigão e publicado em 2010. São 21 entrevistas com perspectivas diferentes a respeito do conceito de tempo, como por exemplo a compreensão de que “O tempo “é”, e nós estamos inseridos nele. Tanto é que nós não o sentimos passar, justamente porque nós é que fluímos dentro dele. Ele é um parâmetro dentro de uma métrica.” Maria Cristina Abdalla, Física (p.232).

Em outro livro, leio as palavras de Jean Piaget, pesquisador do processo da construção do conhecimento humano que, em um dos seus livros, A Construção do real na criança (1963) escreve sobre o tempo: “… o tempo supõe o espaço, pois que o tempo nada mais é do que uma relacionação dos eventos que o preenchem…” p. 298 e, ainda:

“O tempo confunde-se, pois, no seu ponto de partida, com as impressões de duração psicológica inerentes às atitudes de expectativa, de esforço e de satisfação, em resumo, à atividade do próprio sujeito.” P. 299

Bem, seja lá qual for o conceito, ou a compreensão de tempo que cada um de nós formula, o que há de comum é o processo vivido em um tempo histórico determinado, em um espaço geográfico e também, por que não dizer, em um tempo/espaço simbólicos.

Tempo é pro-ces-so que inclui o movimento de aprendizagem que gira como os ponteiros de um relógio, compondo não apenas uma forma circular, mas uma espiral tridimensional (imaginação minha) onde a cada giro é possível acessar o conhecimento anterior para sustentar o que está por vir.

E, é neste conhecimento anterior que podemos encontrar as experiências, as referências cognitivas, afetivas e sociais que poderão dar suporte aos processos de tomada de decisão que envolvem a atual condição humana.

Vivemos um tempo de decisões.

O tempo não para! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo… Mário Quintana

O que é meu ou o que é nosso? A lagoa secou!

Virginia Alice C. R. Fernandes de Oliveira

Fundo foto criado por fanjianhua – br.freepik.com

Nestes dias, sentindo reflexo da falta de chuva na cidade, numa tarefa corriqueira de lavar a roupa, vi-me a pensar. Como algo tão simples pode ser tão complexo e promover viagens a sentimentos, experiências e sensações tão profundas e também tão distantes?

Como deve ser a vida para alguém que não tem água encanada em casa?

Ali, a poucos metros da minha casa, no meio de um pequeno bosque, existe uma “ocupação”, da qual vejo apenas a trilha. Sei que ela existe pelos catadores de recicláveis que já vi entrarem por ali e também pelas casas ao redor, que foram demolidas em razão de uma reintegração de posse. Sei que pessoas estão ali dentro daquele bosque, que ali habitam famílias, e que, muito provavelmente, não têm água encanada dentro de casa.

Essa reflexão leva-me às periferias das grandes cidades, como a nossa, ao sertão deste nosso país continental, a grande parte dos países da África.

Também penso nas pessoas envolvidas em proteger as nascentes para que elas continuem a abastecer os rios, em outras preocupadas em encontrar formas de construir cisternas para que possam guardar a água da chuva, em tantas outras preocupadas em cavar poços profundos para ter acesso à água e para garantir que ela não falte.

Essas ações podem ser pensadas com objetivos individuais ou coletivos.

Perto da minha terra, onde meus pais foram agricultores, existe uma lagoa linda, que fez parte da minha infância e, até bem pouco tempo, fazia parte do nosso pôr do sol, admirado da janela da cozinha. Há poucos dias, tive notícias de que ela agoniza por falta de chuva e pelo descuido de alguns que permitiram seu assoreamento. Estes cuidaram de sua terra, para serem mais produtivas em um curto espaço de tempo, mas não se importaram que a enxurrada  proporcionada pelo excesso de chuva e pela falta de curva de nível em suas terras assoreasse a lagoa. Perdemos a lagoa; nós e eles. Hoje, suas terras estão lavadas e, por isso, precisam de um caro processo para a reconstituição da fertilidade.

 Esses fatos permitiram-me fazer analogias com várias situações da vida, e uma delas é sobre acumular e disseminar o conhecimento.

Existe um jovem empreendedor que fez sucesso em seus negócios, utilizando uma receita de um bolo que fazia (um brownie). Um dia, resolveu colocar sua receita na Internet para quem quisesse usar. Muitas pessoas perguntaram-lhe se não tinha medo de contar o segredo que permitiu o seu sucesso, e ele respondeu: Para muitos, o segredo é a alma do negócio; para mim, a alma é o segredo do negócio.

Quando era menina, no meu Caderno de Lembranças, recebi uma poesia escrita por uma prima querida. A poesia é de Guilherme de Almeida, e um dos versos diz: “Tudo muda, tudo passa neste mundo de ilusão; vai para o céu a fumaça, fica na terra o carvão”.

 A decisão está em nossas mãos: escolher o que fazer com a fumaça e o que fazer com o carvão. Acredito que tais escolhas dependem de nossas experiências anteriores, de nossa visão de humanidade e de mundo. Alguns vão ver na fumaça só poluição; outros, o calor que pode condensar água e ajudar a chuva cair. Alguns, vendo o carvão, veem o resto, a sujeira, o escuro; outros veem nele a capacidade de produzir fogo ou a substância que dá início à vida. Nenhuma das posições deixa de ser verdade. Precisamos respeitar as duas; ocupando-nos das duas, teremos chance de colher frutos mais saborosos.

Meu desejo é que esta quarentena e tudo que a promoveu permitam a todos um exercício: dar espaço ao mundo novo que estamos por conhecer.

Os efeitos dessa mudança são muito diversos; eles trazem oportunidade ao planeta e aos seres que vivem nele. Está nas mãos da humanidade construir possibilidades que aumentem a sua continuidade ou acelerem sua destruição. Está na mão do ser humano a construção de atitudes que aumentem a sua possibilidade de ser egoísta e individualista, estando apenas voltado ao seu umbigo, mas também a construção de atitudes que aumentem a sua possibilidade de ser generoso e solidário, a fim de crescer integrando as diferenças, desenvolvendo a compreensão, a empatia e a realidade de coexistência.

AH! ESTA PANDEMIA…..

Vera Lucia Germano Sicuro

Ela acabou com a minha vida, estou trabalhando como um (a) louco (a);

Separou o casal, não conversamos mais;

Transformou meus filhos pequenos nuns pestinhas que não me obedecem, não têm limites, não cumprem com suas obrigações, não colaboram;

E os adolescentes, então, não querem nada com “a hora do Brasil”….

Não vejo a hora que tudo isso acabe e a vida volte ao normal!

Não, na minha casa foi diferente, a pandemia trouxe tempo para brincar, conversar, baixou a tensão, até sobra tempo, pois, as coisas estão organizadas, as tarefas são divididas, as crianças estão calmas, estamos fazendo coisas que há tempo planejávamos e não conseguíamos realizar.

Estou com medo que acabe e tudo volte ao normal!

Será que estamos falando de pandemias diferentes?

É claro que não! A pandemia não tem intenção, não tem reflexão, ela simplesmente é, acontece. O que muda então?

Parece – me, que o que muda é o que tem dentro, ou entre, cada um de nós. Que este período de intensa convivência está permitindo que nos olhemos e à nossa forma de sentir, refletir, resolver e fazer, com muito mais intensidade. É como se, a todo o momento, estivéssemos nos olhando através de um espelho com lente de aumento… Estamos tomando consciência dos nossos padrões de comunicação e de relacionamento.

E o que são estes padrões? Padrão é a forma como usualmente nós lidamos, e muitas vezes nem nos damos conta, com sentimentos, regras, situações ou pessoas. Os padrões não aparecem magicamente, eles são construídos ao longo do tempo, com base nas nossas crenças, e do nosso (a) parceiro (a), e nas das nossas famílias de origem; nos padrões que experenciamos ao longo da nossa história. Alguns destes padrões são muito eficazes, facilitam nossas vidas, e outros as complicam. Precisamos conhecer nossos padrões para poder introduzir mudanças eficazes, caso necessitemos e/ou desejemos.

Costumo dizer, mal comparando, que não conhecer nossos padrões ineficientes, é como se ao varrer uma sala, deixássemos para trás um pouco do pó, e ao invés de juntá-lo com a pazinha, o colocássemos embaixo do tapete. Afinal, é só um pouquinho… De pouquinho em pouquinho, vai se formando uma elevação no tapete, e um dia ao andarmos desatentamente, ou nossos filhos que ainda não tem habilidade para fazer manobras de desvio, tropeçássemos e caíssemos, podendo nos machucar de forma leve ou até desastrosa.

Então é isso, que de forma metafórica, está acontecendo neste período de intensa convivência, em função da pandemia: estamos tensos, ansiosos, angustiados, desgastados, sobrecarregados de tarefas e emoções, desatentos para desviar dos montinhos de poeira que acumulamos em baixo dos tapetes…

Isto é bom ou é mau? A resposta vai depender de como lidaremos com a situação: vamos colocar a culpa na pandemia e nos acomodarmos, esperar que tudo se arrume magicamente ou vamos aproveitar para tomar consciência e nos tornarmos autores para transformar os padrões ineficazes, aqueles que trazem um resultado diverso do que desejamos. Conseguiremos realizar esta tarefa sozinhos ou precisaremos de ajuda profissional? Teremos coragem de buscá-la caso precisarmos?

Era Uma Vez é agora!

Laura Monte Serrat Barbosa

Era uma vez muitas pessoas que viveram seu tempo de produtividade no Século XX e em parte do Século XXI. Tinham uma vida muito atribulada. Inventaram máquinas e tecnologias para substituir o fazer dos humanos. O tempo livre que surgia com essas inovações ia sendo ocupado com mais coisas para fazer e, em vez de descansar, essas pessoas ficavam mais atribuladas.

O dia começava cada vez mais cedo e terminava cada vez mais tarde, com muito trabalho e pouco tempo para diversão, para descanso… para vida.

Uma dessas invenções levou o trabalho para dentro de casa e a casa para dentro do trabalho. Em vez de oito horas de trabalho, oito horas de convívio com a família e oito horas de sono, as coisas foram se misturando. O sono passou a ter um espaço de apenas cinco ou seis horas, quando o turbilhão do dia não ficava martelando na cabeça até as pessoas conseguirem dormir. A família passou a conviver na hora do almoço, ou na hora do jantar, pois com cada um correndo para um lado, preocupado com seus afazeres, não era possível muitas horas de convívio. Além disso, para casa, vinham também as tarefas da escola, do escritório, da fábrica, da loja e de tantos outros lugares. De oito horas, talvez sobrassem umas duas horas de convivência para fazer nada, conversar, perguntar sobre amenidades, ouvir música, rir e dançar.

O trabalho, sim, foi se avolumando; comeu três horas do sono, seis horas do convívio e passou a funcionar quase vinte e quatro horas por dia; durava mais ou menos dezessete horas diárias, dependendo da pessoa e da sua atribulação.

Nessa corrida, as pessoas atribuladas acabaram tendo dificuldades para fazer viagens, passeios, mergulhos no seu mundo interior; foram fugindo de si mesmas, terceirizando o convívio, tratando e medicando os vazios que a ausência de si causava.

Nessa corrida, uma parada, uma pisada no freio têm provocado inúmeras sensações nessas pessoas e naqueles que estão a sua volta.

E quem são essas pessoas? É a maioria de nós. Incluo-me nesse quadro e, por isso, pergunto:

Será possível, em vez de continuar enlouquecidos, trabalhando e trabalhando, em casa e na casa, dividir tarefas domésticas, organizar um tempo para o trabalho e aumentar um pouco mais o tempo para conviver com os nossos e descansar?

Conseguiremos modificar essa corrida desenfreada? Seremos capazes de rever valores de humanidade? Teremos condições de conviver com nossos amigos e parentes, mediados pelo bem querer?

Penso que podemos aproveitar o momento para conversar mais conosco e responder às perguntas:

Quem eu sou? Onde estou? O que já caminhei? Para onde desejo caminhar? Tenho escolhas? O que considero importante na vida que levo? O que desejo modificar? O que pode ser modificado em meu desejo?

Então, embebidos de nós, poderemos olhar para o outro, estar no lugar dele, compreender suas falhas, enxergar suas necessidades, confiar em suas possibilidades, oferecer condições de experiências, acreditar em suas escolhas, ouvir o que ele tem a dizer, argumentar e deixar um cantinho dentro de nós para recebê-lo, acolhê-lo e também para lançá-lo aos desafios que a vida coloca para todos nós!

Converse com a gente!