ESPAÇO PÚBLICO X ESPAÇO PRIVADO EM CASA

Vera Lucia Germano Sicuro

Lendo o texto publicado na semana passada, fiquei pensando em situações domésticas onde, às vezes, fica difícil, para algumas pessoas, distinguir o que faz parte do espaço público ou do privado. Espaço este, que pode ser físico ou emocional.

Nestes tempos de pandemia, quando estamos em maior convivência dentro de casa, qual é o espaço púbico e qual é o privado? Será que o quarto de cada um é seu espaço privado? E o escritório, o quarto de brinquedos, a cozinha, as salas e os banheiros? E o espaço privado emocional, quando acontece ou, será que acontece?

Ao abordarmos este tema, difícil não pensarmos que estes conceitos mudam conforme a configuração familiar: famílias com crianças pequenas, com filhos de idades variadas, só de adultos, moradores de uma casa que proporciona (ou não) espaços individuais para seus membros. Difícil também não pensar, depois que se diferencia quais são os espaços físicos públicos dos privados, sobre como funcionam as regras para sua utilização e conservação. Tenho observado em muitas das famílias que atendo, muita dificuldade em lidar com este aspecto.

 Vejo algumas famílias com crianças de quatro ou cinco anos onde os pais dizem que cada uma é responsável pelo seu quarto, que lá podem brincar ou fazer o que quiserem e depois tem que arrumá-lo direitinho e que se isso não acontecer vão levar uma bronca e ficar de castigo… Fico pensando como estas crianças, nesta idade, neste período do desenvolvimento, vão se autogerir para cumprir com este grau de exigência? Como interpretam estas mensagens recebidas? Será que não estão no momento de aprender estes conceitos de liberdade, individualidade, organização, bem estar sentido com a organização? Será que não é o caso de fazer junto, de curtir este fazer, para que depois ele se torne uma necessidade dela mesma?

 Vejo também outras famílias, com filhos adolescentes,  que não lhes dão autonomia alguma: os pais entram nos quartos dos filhos sem pedir permissão, a qualquer hora, determinam de forma autoritária como devem ou não usar o tempo que ficam lá, e como devem organizá-lo.  Será que este comportamento dos pais é adequado, será que estas expectativas e/ou necessidades não poderiam ser discutidas e construídas a partir do diálogo entre as partes? Será que está sendo levado em conta que estes filhos estão sem a possibilidade de sair, encontrar com amigos, curtir seus prazeres fora de casa? Que estes filhos estão numa fase de verdadeira ebulição hormonal e emocional, e que isso muitas vezes se reflete no seu comportamento e na organização de seus pertences e do seu espaço físico?

Em compensação tenho observado estas mesmas famílias lidarem com os espaços públicos da casa como se fossem única e exclusivamente de responsabilidade dos pais. Eles que definem as regras de utilização e fazem sozinhos a sua organização e manutenção. Se tornando mais um motivo de sobrecarga e reclamação da parte dos pais que dizem que se sentem como escravos da casa e dos filhos, que não podem relaxar um momento sequer pois tem ainda as exigências profissionais que não diminuíram, as preocupações com a contaminação devido à pandemia, etc,etc… Nestes casos, por que não contar com os filhos neste processo de cuidar das áreas públicas da casa?

Conheço uma família que resolveu estas questões de organização e manutenção da casa de uma forma interessante. Depois de discutirem o que seria espaço público e privado da casa, e como poderia ser a utilização dos mesmos, juntos fizeram uma lista de todas as tarefas que precisavam ser contempladas para a organização e manutenção da casa. Como a auxiliar doméstica estava afastada em função da pandemia, resolveram que todos deveriam participar destas tarefas para que ninguém ficasse sobrecarregado. Começaram assinalando as tarefas que só poderiam ser realizadas pelos adultos, depois passaram para as tarefas que poderiam ser divididas entre os adultos e os filhos mais velhos e por ultimo, aquelas que poderiam ser feitas também pelos filhos menores. Depois de realizadas estas classificações, cada um se inscreveu, livremente, para fazer aquelas tarefas que julgava mais fáceis ou interessantes, de acordo com suas habilidades. É claro que sobraram algumas para as quais ninguém se inscreveu. Isso gerou nova conversa para decidir como resolver esta questão: resolveram fazer um rodízio onde todos as fariam, por um curto período. Resolvidas estas questões, puseram o plano em prática por uma semana e depois, sentaram novamente, discutiram a funcionalidade dos combinados e corrigiram a “rota”.

Até agora falamos do espaço físico, mas e o espaço emocional? O que faz parte do espaço público e do privado? Como lidar com este período de “alagamento” sentido no espaço emocional compartilhado? Como conseguir um tempo de individualidade para se “nutrir”, para recarregar as “baterias”? Esta é uma tarefa desafiadora, pois pressupõe que cada um(a) saiba o que o(a) ajuda neste momento e depois que tenha a coragem de reivindicar estes seus momentos, sem se sentir culpado(a) por isso.

Muitas pessoas podem se perguntar que importância tem pensar sobre isso?

E eu respondo que, do meu ponto de vista, como terapeuta familiar, esta reflexão é muito significativa. Ajuda a definir regras de convivência, estimular a autonomia, trabalhar a cooperação, a diferenciação, melhorar a comunicação, diminuir conflitos!

EM TEMPOS DE MISTURA

Reflexões de uma educadora caminhante

Laura Monte Serrat Barbosa

Olhar fecundo – Cá 2020

Quando pequena, lembro-me de que só havia um telefone na travessa em que morávamos: o nosso.

Diante de uma urgência, todos os vizinhos iam à nossa casa para emprestá-lo. Por estratégia, penso eu, ele ficava bem perto da porta da entrada lateral da casa, e uma pessoa não necessitava entrar além da copa para utilizá-lo; ela teria uma visão da cozinha, que era geminada, e nada mais.

As visitas entravam pela porta da frente e tinham apenas a visão da sala e do escritório de meu pai, que ficava no mesmo ambiente.

Os íntimos chegavam, entravam por tudo, subiam nos quartos, desciam, andavam pela cozinha, pela copa, pela sala e pelo quintal. Lá, nessa época, ainda havia algumas árvores frutíferas, aquelas que não foram derrubadas para a construção da garagem, da lavanderia, de um quarto com banheiro (que fora morada da minha avó por um tempo) e do quartão, como chamávamos o quarto onde estudávamos, dávamos festas, fazíamos artesanato e tudo aquilo que uma porção de irmãs e um irmão, juntos, podiam fazer.

Éramos uma família populosa e que, quase sempre, teve mais um ou dois agregados para compartilhar o espaço.  Apesar do grande número de pessoas na mesma habitação, herdamos, como tantas outras famílias, a ideia de privacidade do Iluminismo, quando a arquitetura doméstica modificou-se, aparecendo espaços especiais para que os componentes da família dormissem com mais privacidade, superando a cultura anterior, da Idade Média, na qual o grupo familiar e os agregados dormiam no mesmo cômodo.

No meu tempo de criança, era comum, as visitas chegarem sem avisar e, às vezes, tínhamos que correr para deixar as coisas em ordem e não passar vergonha. Quem estava de pijama corria para se arrumar; quem já estava vestido tirava a bagunça do caminho ou preparava um café, enquanto meus pais entretinham as visitas no espaço da sala. 

Com o advento da Modernidade e da Pós-modernidade, os espaços foram diminuindo, as mulheres saíram para trabalhar e, então, as visitas, quando desejavam, combinavam os encontros por telefone.

A privacidade construída e a busca por identidade e individualidade foram modificando as relações humanas ao longo da história da humanidade. Da família matriarcal à família patriarcal; da família patriarcal à família nuclear; da família nuclear às famílias reconstituídas;

das famílias reconstituídas a uma dezena de formatos e composições familiares. Cada uma com seus hábitos e suas éticas em relação à convivência no espaço público (ou seja, viver em prol do bem comum) e em relação à privacidade (ou seja, viver o individual, o nuclear), o que, de certa forma, tem a ver com o grau de intimidade entre as pessoas de determinado grupo.

Até mais ou menos os anos 1960, as famílias educavam seus filhos considerando o mundo interno (responsável pelo que se passa dentro das pessoas), o mundo externo (aquele no qual é preciso viver, estudar, trabalhar e sobreviver), além de todas as pontes possíveis entre eles. Nesse tempo, as mudanças eram mais lentas, e a ideia de estabilidade, profissional e financeira, e de movimento familiar, de certa forma, era previsível. Público e privado diferenciavam-se entre si, e as pessoas surpreendiam-se pouco com as novidades que pudessem aparecer nessa dinâmica.

A história continuou, e o mundo da tecnologia começou a imprimir um ritmo diferente; sujeitos foram substituídos pela “pessoa objeto”, e o espaço interno passou a ser menos valorizado. O espaço externo passou a ser objeto de consumo e de descarte. Além disso, surgiu outro espaço a ser entrelaçado: o espaço virtual. O espaço que tem unidade de tempo, mas não tem unidade de lugar; que descentraliza, que desterritorializa, que se caracteriza por ser um espaço da não presença. Diferente do espaço presencial, onde “somos aqui”, no espaço virtual, “somos lá”.

Virtual, segundo Pierre Lévy*, é derivado de virtus (latim medieval), que significa força, potência; portanto, é o que existe em potência, e não em ato. Segundo o autor, o virtual atualiza-se sem passar pela concretização.

Apesar de virmos, como humanidade, aprendendo a fazer o enlace desses três espaços, fomos convidados, com a chegada de uma pandemia, a aligeirar o processo e a aprender a lidar com esse espaço virtual sem conhecer a sua cartografia em totalidade, sem ter desenvolvido as competências para atualizar e virtualizar; ou seja, fomos impulsionados a transformar ideias do que está por vir, inventando, produzindo qualidades novas, criando, mas sem ter definido, se quer, um código de ética para nos relacionar intensamente neste novo espaço.

Como na Idade Média, encontramo-nos em um aglomerado de pessoas, tarefas e sentimentos. Nossa casa passou a ser o ninho da família, o espaço da escola, a sala de espera e de atendimento do consultório, o restaurante, a lavanderia, o espaço de brincar e de trabalhar. Enfim, “tudo junto e misturado”.

Novamente, espaços indiferenciados!

Então, me pergunto: Como devemos entrar na casa das pessoas pela janela virtual? Como devemos receber quem chega pela janela virtual em nossa casa? Existe uma ética para as relações que se dão num espaço que não possui uma unidade de lugar? Precisamos nos vestir para falar com o médico numa consulta de telemedicina? Precisamos pentear os cabelos para conversar com a professora? Precisamos atender uma visita na sala ou podemos atendê-la no quarto? Conversamos com a professora particular estando deitados na cama, sentados no sofá ou, ainda, em frente à escrivaninha? O que é adequado nesta ou naquela situação?

Vamos pensar! Vamos discutir as questões ligadas ao espaço privado, ao espaço público, e às relações possíveis no espaço virtual.


* LÉVY, P. O que é virtual? Rio de Janeiro: Editora 34, 1996.

Converse com a gente!