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Mãos ocupadas, boca livre

12 de dezembro de 2019

Vera Lucia Germano Sicuro

Vamos imaginar uma cena: uma avó, um casal, sete crianças (filhos e sobrinhos do casal, netos da avó), todos na cozinha da avó, em um domingo,  fazendo bolachas de Natal. A avó preparou a massa, o neto mais novo (03 anos) e a tia, eram os responsáveis por abrir a massa no cilindro. A tia levantava a manivela (trabalho mais pesado) e o sobrinho se pendurava para baixá-la com o peso do seu corpo. As tiras de massa iam para cima da mesa e as cinco crianças intermediárias, junto com a avó, as cortavam com cortadores de formatos diversos e colocavam as bolachas em assadeiras que iam ao forno para serem assadas. Como este pedaço do processo exigia mais cuidado e responsabilidade, ficava a cargo do neto mais velho (08 anos) e seu tio.

As bolachas assadas, depois de frias eram colocadas em latas, e lá ficavam até o próximo final de semana, quando todos se reuniam novamente, agora na mesa da churrasqueira, para o processo de decoração das bolachas.

A avó preparava uma bisnaga de glacê de cada cor e as colocava, junto com outros diversos “pequenos enfeites” sobre a mesa. As crianças escolhiam as bolachas e usavam livremente a criatividade para decorá-las sob a supervisão da avó e da mãe/tia. Estas eram, também, as mediadoras dos conflitos que porventura ocorressem.

Ao final do dia, cada criança decidia o que queria fazer com as suas bolachas. Comê-las sozinho, levar para casa e compartilhar com a família nuclear, dar de presente para amigos e/ou professores, servir para a família extensa na reunião natalina eram as ações mais escolhidas.

A cena descrita ocorreu há aproximadamente 35 anos, já tinha ocorrido muitas vezes na geração anterior, se repetiu muitas vezes com estas mesmas crianças, depois adolescentes e adultos, e já aconteceu algumas vezes com a nova geração. Agora temos quatro gerações envolvidas nesta tarefa: bisavó, avós, pais e filhos. Todos esperam ansiosos pelo tradicional ritual…

Brincadeira? Com certeza tem muita, mas também tem uma tarefa séria, cheia de aprendizado, proporcionado pelas consignas verdadeiras: leitura (das receitas); análise crítica e exercício do consenso(escolha daquela que vai ser feita); organização e planejamento(do local onde vai ser realizada a tarefa, separação dos ingredientes, dos equipamentos, distribuição das tarefas); matemática(pesagem e medição dos ingredientes); física( tempo e calor do forno);coordenação motora(abrir a massa, cortar, colocar e retirar da assadeira, decorar as bolachas). E a todo o momento: exercitar a comunicação ao expor suas ideias e argumentar sobre elas, ouvir a dos outros, lidar com as opiniões contrárias; encarar a sua ansiedade ao ter que esperar a sua vez, o tempo da massa, do forno, da liberação dos cortadores de massa, da bisnaga de glacê com a cor escolhida; lidar com a frustração da não aceitação de algumas de suas ideias, do seu trabalho não sair bem de acordo com a sua expectativa; aprender a avaliar e corrigir a rota caso necessário; fazer o exercício do consenso; respeitar a hierarquia entre os pares e entre as gerações; finalizar o trabalho com a limpeza dos materiais e do local de trabalho…

Além disso, este fazer coletivo proporciona uma excelente oportunidade de aprofundar a intimidade, de contar e ouvir as histórias individuais, da família, de reuniões como esta; passar valores e tradições familiares; aprender a cooperar,  aprender na prática a delícia e a riqueza do fazer e conviver em grupo…

Sentar e conversar em família, sobre algum assunto, muitas vezes é difícil mas, quando as mãos estão ocupadas, as defesas baixam, a espontaneidade e a intimidade aumentam e a “boca fica livre”…

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