RETROSPECTIVA – UMA EQUIPE EM MOVIMENTO

Simone Carlberg

Em 2019 a Síntese – Centro de Estudos da Aprendizagem completou 30 anos de existência!

Foi um ano de comemoração, de modernização do nosso site (que inclui este blog) alimentado com textos semanais sobre temas que consideramos pertinentes ao momento atual.

Para o último texto do ano de 2019 escolhemos contar, aos leitores, o que fizemos, além da atuação cotidiana de atendimentos individuais e grupais.

No mês de outubro, nos dias 04 e 05, as psicopedagogas da equipe da Síntese participaram do I Simpósio de Psicopedagogia da Região Sul – “diálogos com áreas afins – história, pesquisa e âmbitos de atuação”, realizado em Londrina. Apresentamos trabalhos científicos e, no evento, Laura Monte Serrat Barbosa foi homenageada por sua participação na Associação Brasileira de Psicopedagogia – Seção Paraná – (ABPp PR) nos 30 anos de existência da instituição no nosso Estado.

Ainda no mesmo mês, no dia 26 de outubro, participamos do IV Simpósio Nacional de Psicopedagogia e Profissionalização: “contextos e transformações”, realizado em São Paulo, na condição de palestrantes.

Também no mês de outubro, a psicóloga Vera Lucia Germano Sicuro foi homenageada pela Associação Paranaense de Terapia Familiar – APRTF – por sua contribuição profissional nos 25 anos completados pela instituição, como também, participou do grupo de estudos sobre infidelidade conjugal que culminará na publicação de um livro sobre o tema.

A psicopedagoga Arlete Zagonel Serafini e a psicóloga Virginia Alice C. R. F. de Oliveira participaram do curso “Porque todo mundo teve mãe” ministrado por Laura Gutman, como também, participaram da oficina: “Já para fora!” Coordenada por Ana Carol Thomé. E ainda, Arlete participou da vivência “A criança, a imaginação e a vida material” coordenada por Gandhy Piorski, nos dias 13, 14 e 15 de setembro.

E, no decorrer do ano participamos, como docentes, em cursos de Especialização e Aperfeiçoamento em Psicopedagogia em Curitiba, interior de São Paulo, Rio Grande do Norte e na Bahia; coordenamos grupos de aprendizagem no SENAC em um projeto piloto desenvolvido por Simone Carlberg e Laura Monte Serrat Barbosa que também organizaram e ministraram um curso inédito, cuja metodologia foi desenvolvida pela equipe da Síntese – Atendimento psicopedagógico em grupo – âmbito clínico.

Coordenamos um grupo de discussão no I Fórum Itapoá do Amanhã promovido pela Associação de Defesa e Educação Ambiental (ADEA – SC).

Um ano produtivo, permeado de atualização e de participação intensa em Associações que congregam profissionais da psicopedagogia, psicologia e educação, bem como integramos o GAE, Grupo de Pesquisa vinculado à PUC PR que há 15 anos se dedica a estudar o processo aprendizagem/ensino.

Desejamos permanecer na condição de aprendizes para apoiar e somar com outros aprendizes porque o processo de aprendizagem é dinâmico, um estado permanente.

É com gratidão que nos despedimos de 2019 para retomarmos nossas atividades na segunda quinzena de 2020. Vamos parar para descansar porque o intervalo é necessário depois de um ano intenso de atividades.

Para 2020 projetemos a esperança!

Mãos ocupadas, boca livre

Vera Lucia Germano Sicuro

Vamos imaginar uma cena: uma avó, um casal, sete crianças (filhos e sobrinhos do casal, netos da avó), todos na cozinha da avó, em um domingo,  fazendo bolachas de Natal. A avó preparou a massa, o neto mais novo (03 anos) e a tia, eram os responsáveis por abrir a massa no cilindro. A tia levantava a manivela (trabalho mais pesado) e o sobrinho se pendurava para baixá-la com o peso do seu corpo. As tiras de massa iam para cima da mesa e as cinco crianças intermediárias, junto com a avó, as cortavam com cortadores de formatos diversos e colocavam as bolachas em assadeiras que iam ao forno para serem assadas. Como este pedaço do processo exigia mais cuidado e responsabilidade, ficava a cargo do neto mais velho (08 anos) e seu tio.

As bolachas assadas, depois de frias eram colocadas em latas, e lá ficavam até o próximo final de semana, quando todos se reuniam novamente, agora na mesa da churrasqueira, para o processo de decoração das bolachas.

A avó preparava uma bisnaga de glacê de cada cor e as colocava, junto com outros diversos “pequenos enfeites” sobre a mesa. As crianças escolhiam as bolachas e usavam livremente a criatividade para decorá-las sob a supervisão da avó e da mãe/tia. Estas eram, também, as mediadoras dos conflitos que porventura ocorressem.

Ao final do dia, cada criança decidia o que queria fazer com as suas bolachas. Comê-las sozinho, levar para casa e compartilhar com a família nuclear, dar de presente para amigos e/ou professores, servir para a família extensa na reunião natalina eram as ações mais escolhidas.

A cena descrita ocorreu há aproximadamente 35 anos, já tinha ocorrido muitas vezes na geração anterior, se repetiu muitas vezes com estas mesmas crianças, depois adolescentes e adultos, e já aconteceu algumas vezes com a nova geração. Agora temos quatro gerações envolvidas nesta tarefa: bisavó, avós, pais e filhos. Todos esperam ansiosos pelo tradicional ritual…

Brincadeira? Com certeza tem muita, mas também tem uma tarefa séria, cheia de aprendizado, proporcionado pelas consignas verdadeiras: leitura (das receitas); análise crítica e exercício do consenso(escolha daquela que vai ser feita); organização e planejamento(do local onde vai ser realizada a tarefa, separação dos ingredientes, dos equipamentos, distribuição das tarefas); matemática(pesagem e medição dos ingredientes); física( tempo e calor do forno);coordenação motora(abrir a massa, cortar, colocar e retirar da assadeira, decorar as bolachas). E a todo o momento: exercitar a comunicação ao expor suas ideias e argumentar sobre elas, ouvir a dos outros, lidar com as opiniões contrárias; encarar a sua ansiedade ao ter que esperar a sua vez, o tempo da massa, do forno, da liberação dos cortadores de massa, da bisnaga de glacê com a cor escolhida; lidar com a frustração da não aceitação de algumas de suas ideias, do seu trabalho não sair bem de acordo com a sua expectativa; aprender a avaliar e corrigir a rota caso necessário; fazer o exercício do consenso; respeitar a hierarquia entre os pares e entre as gerações; finalizar o trabalho com a limpeza dos materiais e do local de trabalho…

Além disso, este fazer coletivo proporciona uma excelente oportunidade de aprofundar a intimidade, de contar e ouvir as histórias individuais, da família, de reuniões como esta; passar valores e tradições familiares; aprender a cooperar,  aprender na prática a delícia e a riqueza do fazer e conviver em grupo…

Sentar e conversar em família, sobre algum assunto, muitas vezes é difícil mas, quando as mãos estão ocupadas, as defesas baixam, a espontaneidade e a intimidade aumentam e a “boca fica livre”…

Advento, tempo de preparar: Natal, Ano Novo, Férias!

Virginia Alice C. R. Fernandes de Oliveira

No último domingo, as igrejas cristãs marcaram o início do Advento. O termo vem do latim, adventun, e significa vinda, chegada de algo, de alguém. Quando se pensa na chegada, pressupõe-se preparar, planejar, a fim de receber bem, aproveitar aquilo que chega e usufruir da companhia de quem chega.

Esse termo denomina um tempo de preparação, que antecede o Natal, e também pode sugerir uma reflexão sobre as férias escolares que estão chegando.

Férias significa um tempo de descanso, uma mudança na rotina cotidiana que ajuda a restaurar a disposição das pessoas depois de um período de trabalho. Portanto, pode-se dizer que este é o Advento das Férias, em especial das férias escolares.

Então, que tal preparar um tempo para suspender as atividades e deixar o dia acontecer calmamente? Que tal permitir que a tranquilidade tome conta das crianças, para que elas possam vivenciar o ócio, acalmar-se, aprender também a usufruir do silêncio? Que tal preparar umas férias com tempo de “fazer nada”, diferente do dia a dia de hoje, que exige um fazer sem parar? Que tal dar às crianças, como presente de Natal, este tal tempo de “fazer nada”?

Em Grande Sertão, Veredas, Guimarães Rosa já provocava uma reflexão sobre o valor do nada, como elemento de contemplação e de entendimento do mundo. Segundo Renata Penzani, escritora e jornalista, uma das coisas mais importantes que se pode dar a uma criança, numa perspectiva criativa, é um “nada”.

Um “nada” para que ela possa buscar dentro de si o que fazer; um “nada” para ela brincar com os brinquedos guardados e misturados, os quais ela nem lembra que existem; um “nada” para ela brincar com a gaveta do criado mudo, com tantos tesouros guardados e que já viraram bagunça; um “nada” para ela brincar vendo a chuva desenhar no vidro da janela: gotinhas que mostram quando ela começa, que batem no vidro, que escorrem quando ela cessa; um “nada” para ela brincar deitada na grama, dando nome  à forma das nuvens, inventando histórias; um “nada” para ela brincar com a casca da melancia, da sobremesa do almoço, que  pode se transformar, com a ajuda de palitos, em animais da floresta ou de uma linda fazenda; um “nada” para ela brincar com galhinhos que se tornam varinhas mágicas ou colheres de poções feitas de flores, folhas, terra, areia e água.

Isso tudo faz parte de um belo presente: “o nada”; um tempo de power off, de viajar para dentro de si, a fim de significar o que está fora de si.

Isso não é uma apologia contra o brinquedo pronto, que faz pela criança, que permite a passividade! É, sim, uma proposta de outra forma de brincar, já meio esquecida, pouco valorizada; uma forma de brincar que dá à criança a liberdade de ser um agente, de ser um criador de sua brincadeira, de estar livre para inventar, para enfatizar suas capacidades e para produzir mais.

Então, exercitar o ócio é uma das maneiras de ela aprender a ser livre, a ser criativa, a ser autônoma, a buscar resolver seus problemas, a suportar construtivamente as frustrações, a contemplar, a ver o mundo e a aumentar a probabilidade de assumir seu papel de transformadora da vida.

Portanto, neste tempo de Advento, de busca de presentes para dar no Natal, propõe-se aos pais:

– reflitam sobre preparar um tempo e um espaço, a fim de presentear as crianças com o “nada”;

– cuidem com carinho desse presente, para que ele se trasforme em observação, em conhecimento, em aprofundamento a respeito de seu filho.

Assim, ao crescer, seu filho poderá vivenciar com alegria o tempo do ócio e do nada, como combustível para a liberdade de refletir, criar e transformar.

Como sugestão para continuar a reflexão, indicam-se:

www.garimpomiudo.com

www.lunetas.com.br/tempo-livre-e-silencio-o-poder-do-ocio-na-vida-das-criancas/

Converse com a gente!