Informação não é experiência

Laura Monte Serrat Barbosa

Há quase três meses, estamos recebendo informações, muitas informações… Chegamos ao ponto de recomendar, para si mesmo, assistir a apenas um jornal ao dia e a poucos vídeos, ler umas poucas mensagens no celular. Chegamos à exaustão, uma verdadeira intoxicação eletrônica!

Então, fiquei pensando em nossos alunos, nas pedagogias que se pautam na informação, e que não oferecem a experiência ou a possibilidade de reelaboração da experiência que, porventura, os alunos viveram em outros lugares; que não oferecem espaço para a articulação da experiência com o conhecimento já existente, nem oportunidade para o tecido de novos conhecimentos.

É informação atrás de informação, e também testes para ter certeza de que a informação foi captada. É muito cansativo para os aprendizes, assim como está sendo para nós. No entanto, para os aprendizes na escola, não há possibilidade de desligar a informação na hora do cansaço, nem a opção de escolher em quais informações focar, para transformá-las em conhecimento e em sabedoria, trançando-as com tudo o que já experimentaram em suas vidas. 

Nesse sentido, podemos pensar que uma nova pedagogia precisa considerar a experiência, além do experimento. A informação não é experiência, e o excesso de informação cancela a possibilidade da experiência; a informação é a experiência do outro, e não aquela que passa por aquele que a vivencia.

A experiência produz um saber, para além da informação, e é cada vez mais rara nesta época, na qual se confunde informação, conhecimento e aprendizagem. Quando nos informamos, emitimos opiniões sobre tudo, pensamos que dominamos aquele conhecimento; essa atitude de opinar, porém, também cancela as nossas possibilidades de experiência. Julgamos o outro, e não vivemos.

A experiência tornou-se raridade nos dias de hoje, e isso se deve, também, à questão tempo. O ritmo com que as informações são dadas, e logo substituídas por outras, torna nossa vivência instantânea, útil somente para aquele momento e, certamente, desconectada do que já sabemos e do todo do qual ela faz parte. O excesso de velocidade com que as vivências acontecem resulta na falta de silêncio e de memória, que também pode inibir a experiência.

Outro fator que torna a experiência rara é o excesso de trabalho; é a crença de que o sujeito de hoje precisa estar em movimento o tempo todo, produzindo, em ação constante, o que nos torna hiperativos e pouco disponíveis para parar e perceber o que nos passa, o que nos toca e o que nos  acontece, isto é,  o que de fato passa por dentro de nós.

A quarentena proposta com a chegada de um estranho ao mundo está nos convidando a receber muitas informações, gerando um cansaço que pode levar à irritação e a uma experiência distinta daquela que gostaríamos.  

Assim, nesse momento de convivência em família, além de selecionar as informações que receberemos, e de decidir em quais delas vamos nos focar, precisamos nos organizar, promover espaço para a experiência tanto do grupo familiar, quanto individualmente. É preciso refletir sobre as informações, conversar sobre elas, posicionar-se; é preciso organizar o tempo, de tal forma que haja momento para as memórias, para o lúdico, para o silêncio, para o compromisso e para o descanso.

A experiência possibilita distintos sentimentos, novos saberes e compromete-nos em relação ao mundo que habitamos, à nossa responsabilidade. Assim, neste momento de pandemia, não podemos só assistir informações, mas precisamos fazer, avaliar, digerir, refazer, ler, reler, pensar, refletir, repensar, conversar… Precisamos cuidar das formas de viver e conviver, transformando o jeito de aprender e ensinar!

Texto embasado nos estudos de Jorge Larrosa

SOBRE APRENDER

Simone Carlberg

Eu aprendo

Tu aprendes

Nós aprendemos

Aprendizagem é um PRO-CES-SO que ocorre na interação e na inter-relação entre pessoas e o ambiente. De dentro para fora e de fora para dentro. 

Em meio à pandemia, o verbo aprender tem sido conjugado em entrevistas, vídeos, mensagens escritas. Evidenciam-se tarefas cotidianas como novas aprendizagens: passar roupas; cozinhar; realizar várias tarefas de âmbitos diferentes em um mesmo ambiente; criar e organizar uma rotina; acompanhar e/ou preparar aulas on-line ou remotas; conviver 24 horas com familiares; coexistir em ambientes pequenos ou grandes; cooperar; dividir tarefas; acompanhar as crianças em suas necessidades: alimentação, sono, carinho, atividades…; ficar só; projetar cardápios, organizar as compras; planejar gastos; acompanhar notícias anunciadas em diversas telas; ponderar sobre o que é “verdade” e o que é enganação; organizar gavetas; lavar roupas; ler um romance e tantas outras. 

Exercitar estas aprendizagens pressupõe um estado de abertura para o novo, para o inusitado, muito embora, a lista de aprendizagens possa parecer de realização simples pode tornar-se complexa se não houver uma demanda interna.

Será preciso pensar em desejo. É preciso ponderar sobre o que é desejar? 

Bem, provavelmente todos desejamos que a pandemia passe…

Eu desejo, tu desejas, nós desejamos

E quando ela passar, possivelmente, muitos de nós estaremos modificados pela experiência e, se modificados, em outra condição de aprendizagem e não somente porque aprendemos a fazer coisas que não fazíamos anteriormente, mas sobretudo porque vivemos autenticamente esta experiência, que passou por dentro de nós num movimento de integração entre as dimensões do nosso SER (cognitiva, afetiva, funcional e social).

O conjunto das aprendizagens anteriores nos colocam à frente de uma nova experiência – o isolamento físico social – vivida em diferentes graus por cada um de nós.

Que possamos projetar a esperança em nossa nova condição de aprendizes, talvez com um maior grau de autonomia moral que implica em cooperação e respeito mútuo. 

Continuemos: eu aprendo, tu aprendes, nós aprendemos…

É o que temos para hoje…

Vera Lucia Germano Sicuro

Muitos pais que atendemos, quer seja na modalidade de Orientação de Pais, ou na de Terapia Familiar, ao se falar da necessidade e importância de colocar limites em seus filhos e ensiná-los a lidar com a frustração, respondem que esta é uma tarefa muito difícil, pois a vida não colabora…. Que, “antigamente”, as restrições eram reais, não havia tantos brinquedos, nem eram tão acessíveis; que não havia tanto acesso à mídia para criar desejos; que as refeições eram feitas em casa, com  produtos da estação, sem tantos restaurantes a quilo ou praças de alimentação onde cada um pode escolher o que desejar, até mesmo sem precisar esperar muito pelo preparo; que o acesso à TV, computadores e demais   eletrônicos era restrito, pertenciam mais ao mundo adulto,  muito diferente da realidade atual…. Estes pais sentem que precisam ser “artificiais” para ensinar a seus filhos as regras da sua casa, os hábitos, as crenças e o sistema de valores da sua família.

Agora temos um “motivo real, concreto” que não depende da vontade dos pais: a nossa pandemia.

Será que agora estes pais, terão suas dificuldades diminuídas, conseguirão ter argumentos suficientes para dizer a seus filhos que não é hora de ir ao cinema, ao shopping, ao parquinho (se ele estiver muito cheio), aos barzinhos, às baladas que são lugares de possíveis contaminações? Será que vão ter paciência de criar atividades, de dar significado ao estar em casa neste momento? Será que não vão deixar tudo como está, como se fosse um período de férias, com as crianças focadas só no prazer imediato?

Os pais precisam refletir sobre o que querem ensinar a seus filhos, crianças e adolescentes, na atual situação, como podem fazê-lo, de forma a que sua mensagem e as suas estratégias sejam constantes e coerentes.

Precisamos cuidar para não passar a mensagem de que a forma de preservar a população de risco, na qual possivelmente nossos pais estão incluídos, seja simplesmente deixar de visitar os avós…

Enfrentando desafios

Virginia Alice C. R. F. de Oliveira

É tempo de coronavírus! A preocupação com a doença toma conta de nós. Existem aqueles que estão preocupados com a higienização, com os cuidados para aumentar a imunidade; outros preocupam-se  com a saúde pública, querendo saber o que o governo está fazendo para cuidar da população frente a essa ameaça; tem aqueles que, sem se ocupar com as consequências, a qualquer custo, imaginam soluções e enchem as mídias com histórias que podem acabar espalhando o terror e o pânico.

 O envolvimento com a doença pode ficar tão grande que acabamos nos esquecendo da saúde. Buscamos a saúde e valorizamos a doença! Longe de estar dizendo que cuidados não são necessários, temos que nos cuidar e cuidar dos outros; porém, quero refletir a respeito de sermos filhos do imediatismo, da busca do furo jornalístico, da valorização do sensacionalismo.

– Tem mais um caso suspeito!

– Não é possível que os aeroportos continuem a receber as pessoas sem um plano de prevenção!

– Morreram tantas pessoas em tal lugar!

– Estão exagerando ou minimizando o problema?

– É o apocalipse!

– Vídeos espalham-se na mídia, mostrando pessoas desmaiando nas ruas sem socorro. Hospitais são construídos às pressas e preparados para receber os futuros doentes. Acabam-se as máscaras descartáveis, e o álcool em gel não é mais encontrado em lugar algum.

– É o fim dos tempos!

Claro que são momentos preocupantes, e não dá para agir como se não estivesse acontecendo nada. No entanto, espera um pouco!

É tempo de usar mais nosso tempo ao ar livre, de fazer piquenique, de fazer caminhada, de observar os pássaros, as árvores, as flores, as paisagens, os rios… Se o clima não permite, é tempo de ficar mais em nossa privacidade e aprofundar nossos relacionamentos. É tempo de tirar os jogos de tabuleiro das gavetas, exercitar a importância de vivenciar as regras, de estreitar os laços e afrouxar os nós. É tempo de sentar-se ao redor da mesa, de aprofundar o conhecimento sobre nós mesmos e sobre o outro, que está próximo a nós. É tempo de ouvir e ver também com o coração. É tempo de contar histórias da carochinha, histórias dos nossos antepassados, vasculhando fotografias. É tempo de reavaliar juntos os entulhos da casa, tudo que não usamos mais e é útil para tanta gente, o que precisa de um reparo para continuar sendo usado, trazendo alegria, brincadeira, aconchego, utilidade. É tempo de avaliar, no meio disso tudo, o que está pronto para ser usado: aquele CD que a gente nem ouviu ou curtiu tão pouco, aquele livro que ficou no cantinho, e também separar coisas que são mesmo descartáveis para nós e precisam ir para a reciclagem ou para a doação. É tempo de experimentar aquela receita que, há tanto tempo, está por ser feita e de cozinhar junto; a cozinha é espaço do afeto, é mais um lugar para vivenciar o dar e o receber.

É importante refletir.

Não seria esse um tempo de recolhimento e acolhimento? Um tempo de usufruir da solidão, mas não necessariamente de estar solitário? Um tempo para pensar na vida que pulsa como um coração; como um farol que pisca clareando caminhos? Um tempo para pensar na vida que se movimenta como as marés, como o anoitecer e o amanhecer; como as horas que passam, independente do nosso controle e do nosso comando; como as estações que chegam e vão, mais definidas em alguns anos e menos em outros.

Não seria esse um tempo de sincronizar as ações nesse processo da vida? Um tempo de envolver-se com os ciclos, de integrar-se às necessidades do momento? Um tempo de aprender com o que a natureza ensina, reconhecendo-se parte de uma cadeia, em que cada ação reflete uma ação, a qual transforma o todo e, assim, sucessivamente?

Se nos posicionarmos em direção à vida, se agirmos de forma a ir ao encontro dela, eu acredito que teremos muitas possibilidades de contribuir para enfrentar o momento, promovendo saúde; acredito que aprenderemos muito vivenciando situações que tragam eficiência para enfrentar problemas, que tragam conhecimento interior e experiência de convívio harmonioso, com prazer e alegria!

O brincar: o elemento água

Arlete Zagonel Serafini

           Brincando um pouco com as palavras brincar e natureza, podemos construir algumas outras, tais como: brincareza, natubrinca, brincanatu e, porque não, brincanatureza ou naturezabrinca. Pensei nestas novas palavras porque acredito que na natureza o ser humano tem a possibilidade de se desenvolver de forma integrada, de ir construindo o seu pertencimento neste mundo.

           O livre brincar num ambiente natural vai dando à criança, através  da imaginação  criativa,  significado ao seu mundo interior. Por quê? Porque somos natureza, daí a necessidade de expressar simbolicamente nossas necessidades internas.

               “A materialidade do brincar (água, terra, fogo e ar) abre caminhos que desembocam na substancialidade do imaginar. As matérias da brincadeira alcançam os sentidos da criança como o arco, as cordas do violino. Produz efeito esse encontro, um riquíssimo espectro de impressões e sentidos. Faz trabalhar uma imaginação vital. Uma imaginação que estabelece vínculo entre a criança e a natureza e tem capacidades específicas e maior plasticidade: é transformadora, regeneradora.”Gandhi Gorski-2016

          O ambiente natural é matriz, por isso a criança se revela na sua totalidade. A criança brinca de forma integrada com estes quatros elementos, porém em cada momento dependendo de sua necessidade, um se apresenta mais forte e é trazido com mais vigor. Ao brincar com a água, por exemplo, aparece mais a fluidez, a flutuação, o equilíbrio, o peso, os limites da força física ou do ambiente ( rio, mar, piscina, lago, cascata, banheira, balde…); o corpo relaxa, revigora, testa a leveza, as mudanças corporais. Neste brincar livre, vai despertando a criança imaginativa, significando os sentimentos, a percepção, os sentidos.

          Através de suas ações constrói respeito, limites, vínculos, escolhas, autonomia, segurança… O adulto aparece como um observador, um mediador para intervir quando necessário, cuidando para não interferir nesta construção do interno/externo porque, provavelmente, a simbolização, a revalidação da cultura humana está se processando.

          Temos feito pouco uso dos espaços ao ar livre. Eles fazem parte de nós porque como já dissemos, nós somos natureza. Como hoje abordamos um pouco do elemento água, gostaria de sugerir a observação de uma ou de várias crianças brincando com ou na água. Tenho certeza que vai ser uma experiência  gratificante e vai aguçar a criança que vive e sempre viverá dentro de você. 

          A jornalista Suzana Camargo diz: “o melhor mesmo é brincar ao ar livre. Sempre! Subindo em árvore, fazendo comidinha com folhas e flores, se sujando na lama. A natureza oferece tudo o que uma criança precisa para se desenvolver de maneira saudável e feliz!”

Meu filho não aprende

Laura Monte Serrat Barbosa

Meu Filho não aprende!

Minha filha é desatenta!

Meu aluno não estuda!

Minha aluna é dispersa!

O que será que nossos filhos e nossos alunos estão querendo nos dizer com esses comportamentos?

A Terra gira, o tempo é dinâmico, os espaços vão se transformando, mas nossos filhos e alunos precisam continuar aprendendo o que aprendemos lá atrás, se comportando e se importando com o que nos importamos lá atrás.

Talvez tenha chegado a hora de pararmos para pensar, nos perguntar e mudar o ângulo de nossa visão para descobrirmos outras possibilidades de discurso que nos impulsione para o futuro.

“Meu filho, ah! Meu filho aprende diferente de mim, preciso descobrir como posso conversar com ele para que a gente se entenda”.

Minha filha tem interesses diferentes dos meus e por isso as coisas de ontem já não chamam tanta atenção dela.

Meu aluno… Ah, meu aluno tem uma forma “bizarra” de estudar. Assiste vídeo-aulas, prefere documentários às minhas aulas, gosta de série… O que posso fazer para que essas novas habilidades mentais possam ser utilizadas em sua aprendizagem?

Qual será o estilo do meu aluno? Muito ativo? Mais reflexivo? Teórico? Pragmático?

No meu tempo achávamos que todos aprendiam da mesma forma…

Como estuda alguém com estilo ativo para aprender? Talvez os estilos reflexivo e teórico se aproximem da forma de estudar que conhecemos… E o pragmático? Tenta aplicar o que aprendeu?  É mais prático?

Minha aluna está desenvolvendo a atenção descentrada, tão necessária nos dias de hoje. O que posso fazer e contribuir para que ela consiga articular atenção descentrada à atenção concentrada, tão nossa conhecida?

Mudando de ângulo podemos perceber o quanto, ainda, precisamos aprender!

RETROSPECTIVA – UMA EQUIPE EM MOVIMENTO

Simone Carlberg

Em 2019 a Síntese – Centro de Estudos da Aprendizagem completou 30 anos de existência!

Foi um ano de comemoração, de modernização do nosso site (que inclui este blog) alimentado com textos semanais sobre temas que consideramos pertinentes ao momento atual.

Para o último texto do ano de 2019 escolhemos contar, aos leitores, o que fizemos, além da atuação cotidiana de atendimentos individuais e grupais.

No mês de outubro, nos dias 04 e 05, as psicopedagogas da equipe da Síntese participaram do I Simpósio de Psicopedagogia da Região Sul – “diálogos com áreas afins – história, pesquisa e âmbitos de atuação”, realizado em Londrina. Apresentamos trabalhos científicos e, no evento, Laura Monte Serrat Barbosa foi homenageada por sua participação na Associação Brasileira de Psicopedagogia – Seção Paraná – (ABPp PR) nos 30 anos de existência da instituição no nosso Estado.

Ainda no mesmo mês, no dia 26 de outubro, participamos do IV Simpósio Nacional de Psicopedagogia e Profissionalização: “contextos e transformações”, realizado em São Paulo, na condição de palestrantes.

Também no mês de outubro, a psicóloga Vera Lucia Germano Sicuro foi homenageada pela Associação Paranaense de Terapia Familiar – APRTF – por sua contribuição profissional nos 25 anos completados pela instituição, como também, participou do grupo de estudos sobre infidelidade conjugal que culminará na publicação de um livro sobre o tema.

A psicopedagoga Arlete Zagonel Serafini e a psicóloga Virginia Alice C. R. F. de Oliveira participaram do curso “Porque todo mundo teve mãe” ministrado por Laura Gutman, como também, participaram da oficina: “Já para fora!” Coordenada por Ana Carol Thomé. E ainda, Arlete participou da vivência “A criança, a imaginação e a vida material” coordenada por Gandhy Piorski, nos dias 13, 14 e 15 de setembro.

E, no decorrer do ano participamos, como docentes, em cursos de Especialização e Aperfeiçoamento em Psicopedagogia em Curitiba, interior de São Paulo, Rio Grande do Norte e na Bahia; coordenamos grupos de aprendizagem no SENAC em um projeto piloto desenvolvido por Simone Carlberg e Laura Monte Serrat Barbosa que também organizaram e ministraram um curso inédito, cuja metodologia foi desenvolvida pela equipe da Síntese – Atendimento psicopedagógico em grupo – âmbito clínico.

Coordenamos um grupo de discussão no I Fórum Itapoá do Amanhã promovido pela Associação de Defesa e Educação Ambiental (ADEA – SC).

Um ano produtivo, permeado de atualização e de participação intensa em Associações que congregam profissionais da psicopedagogia, psicologia e educação, bem como integramos o GAE, Grupo de Pesquisa vinculado à PUC PR que há 15 anos se dedica a estudar o processo aprendizagem/ensino.

Desejamos permanecer na condição de aprendizes para apoiar e somar com outros aprendizes porque o processo de aprendizagem é dinâmico, um estado permanente.

É com gratidão que nos despedimos de 2019 para retomarmos nossas atividades na segunda quinzena de 2020. Vamos parar para descansar porque o intervalo é necessário depois de um ano intenso de atividades.

Para 2020 projetemos a esperança!

Mãos ocupadas, boca livre

Vera Lucia Germano Sicuro

Vamos imaginar uma cena: uma avó, um casal, sete crianças (filhos e sobrinhos do casal, netos da avó), todos na cozinha da avó, em um domingo,  fazendo bolachas de Natal. A avó preparou a massa, o neto mais novo (03 anos) e a tia, eram os responsáveis por abrir a massa no cilindro. A tia levantava a manivela (trabalho mais pesado) e o sobrinho se pendurava para baixá-la com o peso do seu corpo. As tiras de massa iam para cima da mesa e as cinco crianças intermediárias, junto com a avó, as cortavam com cortadores de formatos diversos e colocavam as bolachas em assadeiras que iam ao forno para serem assadas. Como este pedaço do processo exigia mais cuidado e responsabilidade, ficava a cargo do neto mais velho (08 anos) e seu tio.

As bolachas assadas, depois de frias eram colocadas em latas, e lá ficavam até o próximo final de semana, quando todos se reuniam novamente, agora na mesa da churrasqueira, para o processo de decoração das bolachas.

A avó preparava uma bisnaga de glacê de cada cor e as colocava, junto com outros diversos “pequenos enfeites” sobre a mesa. As crianças escolhiam as bolachas e usavam livremente a criatividade para decorá-las sob a supervisão da avó e da mãe/tia. Estas eram, também, as mediadoras dos conflitos que porventura ocorressem.

Ao final do dia, cada criança decidia o que queria fazer com as suas bolachas. Comê-las sozinho, levar para casa e compartilhar com a família nuclear, dar de presente para amigos e/ou professores, servir para a família extensa na reunião natalina eram as ações mais escolhidas.

A cena descrita ocorreu há aproximadamente 35 anos, já tinha ocorrido muitas vezes na geração anterior, se repetiu muitas vezes com estas mesmas crianças, depois adolescentes e adultos, e já aconteceu algumas vezes com a nova geração. Agora temos quatro gerações envolvidas nesta tarefa: bisavó, avós, pais e filhos. Todos esperam ansiosos pelo tradicional ritual…

Brincadeira? Com certeza tem muita, mas também tem uma tarefa séria, cheia de aprendizado, proporcionado pelas consignas verdadeiras: leitura (das receitas); análise crítica e exercício do consenso(escolha daquela que vai ser feita); organização e planejamento(do local onde vai ser realizada a tarefa, separação dos ingredientes, dos equipamentos, distribuição das tarefas); matemática(pesagem e medição dos ingredientes); física( tempo e calor do forno);coordenação motora(abrir a massa, cortar, colocar e retirar da assadeira, decorar as bolachas). E a todo o momento: exercitar a comunicação ao expor suas ideias e argumentar sobre elas, ouvir a dos outros, lidar com as opiniões contrárias; encarar a sua ansiedade ao ter que esperar a sua vez, o tempo da massa, do forno, da liberação dos cortadores de massa, da bisnaga de glacê com a cor escolhida; lidar com a frustração da não aceitação de algumas de suas ideias, do seu trabalho não sair bem de acordo com a sua expectativa; aprender a avaliar e corrigir a rota caso necessário; fazer o exercício do consenso; respeitar a hierarquia entre os pares e entre as gerações; finalizar o trabalho com a limpeza dos materiais e do local de trabalho…

Além disso, este fazer coletivo proporciona uma excelente oportunidade de aprofundar a intimidade, de contar e ouvir as histórias individuais, da família, de reuniões como esta; passar valores e tradições familiares; aprender a cooperar,  aprender na prática a delícia e a riqueza do fazer e conviver em grupo…

Sentar e conversar em família, sobre algum assunto, muitas vezes é difícil mas, quando as mãos estão ocupadas, as defesas baixam, a espontaneidade e a intimidade aumentam e a “boca fica livre”…

Advento, tempo de preparar: Natal, Ano Novo, Férias!

Virginia Alice C. R. Fernandes de Oliveira

No último domingo, as igrejas cristãs marcaram o início do Advento. O termo vem do latim, adventun, e significa vinda, chegada de algo, de alguém. Quando se pensa na chegada, pressupõe-se preparar, planejar, a fim de receber bem, aproveitar aquilo que chega e usufruir da companhia de quem chega.

Esse termo denomina um tempo de preparação, que antecede o Natal, e também pode sugerir uma reflexão sobre as férias escolares que estão chegando.

Férias significa um tempo de descanso, uma mudança na rotina cotidiana que ajuda a restaurar a disposição das pessoas depois de um período de trabalho. Portanto, pode-se dizer que este é o Advento das Férias, em especial das férias escolares.

Então, que tal preparar um tempo para suspender as atividades e deixar o dia acontecer calmamente? Que tal permitir que a tranquilidade tome conta das crianças, para que elas possam vivenciar o ócio, acalmar-se, aprender também a usufruir do silêncio? Que tal preparar umas férias com tempo de “fazer nada”, diferente do dia a dia de hoje, que exige um fazer sem parar? Que tal dar às crianças, como presente de Natal, este tal tempo de “fazer nada”?

Em Grande Sertão, Veredas, Guimarães Rosa já provocava uma reflexão sobre o valor do nada, como elemento de contemplação e de entendimento do mundo. Segundo Renata Penzani, escritora e jornalista, uma das coisas mais importantes que se pode dar a uma criança, numa perspectiva criativa, é um “nada”.

Um “nada” para que ela possa buscar dentro de si o que fazer; um “nada” para ela brincar com os brinquedos guardados e misturados, os quais ela nem lembra que existem; um “nada” para ela brincar com a gaveta do criado mudo, com tantos tesouros guardados e que já viraram bagunça; um “nada” para ela brincar vendo a chuva desenhar no vidro da janela: gotinhas que mostram quando ela começa, que batem no vidro, que escorrem quando ela cessa; um “nada” para ela brincar deitada na grama, dando nome  à forma das nuvens, inventando histórias; um “nada” para ela brincar com a casca da melancia, da sobremesa do almoço, que  pode se transformar, com a ajuda de palitos, em animais da floresta ou de uma linda fazenda; um “nada” para ela brincar com galhinhos que se tornam varinhas mágicas ou colheres de poções feitas de flores, folhas, terra, areia e água.

Isso tudo faz parte de um belo presente: “o nada”; um tempo de power off, de viajar para dentro de si, a fim de significar o que está fora de si.

Isso não é uma apologia contra o brinquedo pronto, que faz pela criança, que permite a passividade! É, sim, uma proposta de outra forma de brincar, já meio esquecida, pouco valorizada; uma forma de brincar que dá à criança a liberdade de ser um agente, de ser um criador de sua brincadeira, de estar livre para inventar, para enfatizar suas capacidades e para produzir mais.

Então, exercitar o ócio é uma das maneiras de ela aprender a ser livre, a ser criativa, a ser autônoma, a buscar resolver seus problemas, a suportar construtivamente as frustrações, a contemplar, a ver o mundo e a aumentar a probabilidade de assumir seu papel de transformadora da vida.

Portanto, neste tempo de Advento, de busca de presentes para dar no Natal, propõe-se aos pais:

– reflitam sobre preparar um tempo e um espaço, a fim de presentear as crianças com o “nada”;

– cuidem com carinho desse presente, para que ele se trasforme em observação, em conhecimento, em aprofundamento a respeito de seu filho.

Assim, ao crescer, seu filho poderá vivenciar com alegria o tempo do ócio e do nada, como combustível para a liberdade de refletir, criar e transformar.

Como sugestão para continuar a reflexão, indicam-se:

www.garimpomiudo.com

www.lunetas.com.br/tempo-livre-e-silencio-o-poder-do-ocio-na-vida-das-criancas/

Sobre perguntar

Laura Monte Serrat Barbosa

Há alguns dias, fui convidada para participar de um Talk Show,cujo tema era A Pergunta Que Não Quer Calar. Precisava falar um pouco sobre o papel da pergunta no processo de aprender, e muitas coisas vieram-me à mente! Lembrei-me de distintas abordagens: de Sócrates, de Leonardo Da Vinci, de Paulo Freire, de Alicia Fernández, de Jorge Visca, de nossos estudos sobre a operatividade, fundamentados na Psicologia Social de Pichon-Rivière, e de outras vivências que temos desenvolvido na Síntese – Centro de Estudos da Aprendizagem, com Grupos de Atendimento Psicopedagógico, nos quais as perguntas são o destaque.

Como sintetizar tudo isso? Como falar sobre a pergunta sem fazer perguntas? A pergunta, certamente, desequilibra, faz pensar sobre algo além do que já existe, do que já foi pensado; pode instigar, provocar, modificar o curso de um pensamento, de um argumento; pode assustar, mas pode abrir portas para o conhecimento.

Sócrates usava perguntas como elemento central de seu método – a Maiêutica. Atualmente, essa é uma estratégia a ser redescoberta, pois as perguntas deflagram o processo de aprendizagem; desequilibram e estimulam a investigação; desenvolvem capacidade intelectual importante; e confirmam que a melhor forma de ensinar a perguntar é perguntando.

Lembrei-me, então, das Cem Perguntas, de Pablo Neruda, e decidi selecionar, naquele momento, algumas delas para ilustrar as sensações e as reações que uma pergunta pode causar, por meio de uma vivência.

Como se chama a tristeza de uma ovelha solitária?

Quem acorda o Sol quando dorme em sua cama abrasadora?

Além de tantas outras, como: Como se chama uma flor que voa de pássaro em pássaro? Que distância em metros redondos há entre o Sol e as laranjas? Quem gritou de alegria quando nasceu a cor azul? Sofre mais o que espera sempre ou o que nunca esperou ninguém? Como se chama este coquetel que mescla vodca com relâmpagos? Que coisa irrita os vulcões que cospem fogo, frio e fúria? Se todos os rios são doces, de onde o mar tira tanto sal? Quantos anos tem o mês de novembro? Se as moscas fabricarem mel, ofendem as abelhas? Será a vida um peixe preparado para ser pássaro? De que cor é o cheiro do pranto azul das violetas?

Então, a plateia pegou fogo! Todos queriam responder às perguntas retiradas do jogo Encontro com Pablo Neruda*. (A tradução das perguntas e a releitura das aquarelas foram feitas por mim.)

Também me lembrei de meu pai e das charadas que ele fazia nas longas viagens de Kombi; encerro esse texto com uma delas: O que é? O que é? A letra que não tem som (2 sílabas) e o final do espanto (2 sílabas) enfeitam os caminhos.

* Disponível em: www.martybrito.cl.

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