O que é meu ou o que é nosso? A lagoa secou!
25 de maio de 2020Virginia Alice C. R. Fernandes de Oliveira

Nestes dias, sentindo reflexo da falta de chuva na cidade, numa tarefa corriqueira de lavar a roupa, vi-me a pensar. Como algo tão simples pode ser tão complexo e promover viagens a sentimentos, experiências e sensações tão profundas e também tão distantes?
Como deve ser a vida para alguém que não tem água encanada em casa?
Ali, a poucos metros da minha casa, no meio de um pequeno bosque, existe uma “ocupação”, da qual vejo apenas a trilha. Sei que ela existe pelos catadores de recicláveis que já vi entrarem por ali e também pelas casas ao redor, que foram demolidas em razão de uma reintegração de posse. Sei que pessoas estão ali dentro daquele bosque, que ali habitam famílias, e que, muito provavelmente, não têm água encanada dentro de casa.
Essa reflexão leva-me às periferias das grandes cidades, como a nossa, ao sertão deste nosso país continental, a grande parte dos países da África.
Também penso nas pessoas envolvidas em proteger as nascentes para que elas continuem a abastecer os rios, em outras preocupadas em encontrar formas de construir cisternas para que possam guardar a água da chuva, em tantas outras preocupadas em cavar poços profundos para ter acesso à água e para garantir que ela não falte.
Essas ações podem ser pensadas com objetivos individuais ou coletivos.
Perto da minha terra, onde meus pais foram agricultores, existe uma lagoa linda, que fez parte da minha infância e, até bem pouco tempo, fazia parte do nosso pôr do sol, admirado da janela da cozinha. Há poucos dias, tive notícias de que ela agoniza por falta de chuva e pelo descuido de alguns que permitiram seu assoreamento. Estes cuidaram de sua terra, para serem mais produtivas em um curto espaço de tempo, mas não se importaram que a enxurrada proporcionada pelo excesso de chuva e pela falta de curva de nível em suas terras assoreasse a lagoa. Perdemos a lagoa; nós e eles. Hoje, suas terras estão lavadas e, por isso, precisam de um caro processo para a reconstituição da fertilidade.
Esses fatos permitiram-me fazer analogias com várias situações da vida, e uma delas é sobre acumular e disseminar o conhecimento.
Existe um jovem empreendedor que fez sucesso em seus negócios, utilizando uma receita de um bolo que fazia (um brownie). Um dia, resolveu colocar sua receita na Internet para quem quisesse usar. Muitas pessoas perguntaram-lhe se não tinha medo de contar o segredo que permitiu o seu sucesso, e ele respondeu: Para muitos, o segredo é a alma do negócio; para mim, a alma é o segredo do negócio.
Quando era menina, no meu Caderno de Lembranças, recebi uma poesia escrita por uma prima querida. A poesia é de Guilherme de Almeida, e um dos versos diz: “Tudo muda, tudo passa neste mundo de ilusão; vai para o céu a fumaça, fica na terra o carvão”.
A decisão está em nossas mãos: escolher o que fazer com a fumaça e o que fazer com o carvão. Acredito que tais escolhas dependem de nossas experiências anteriores, de nossa visão de humanidade e de mundo. Alguns vão ver na fumaça só poluição; outros, o calor que pode condensar água e ajudar a chuva cair. Alguns, vendo o carvão, veem o resto, a sujeira, o escuro; outros veem nele a capacidade de produzir fogo ou a substância que dá início à vida. Nenhuma das posições deixa de ser verdade. Precisamos respeitar as duas; ocupando-nos das duas, teremos chance de colher frutos mais saborosos.
Meu desejo é que esta quarentena e tudo que a promoveu permitam a todos um exercício: dar espaço ao mundo novo que estamos por conhecer.
Os efeitos dessa mudança são muito diversos; eles trazem oportunidade ao planeta e aos seres que vivem nele. Está nas mãos da humanidade construir possibilidades que aumentem a sua continuidade ou acelerem sua destruição. Está na mão do ser humano a construção de atitudes que aumentem a sua possibilidade de ser egoísta e individualista, estando apenas voltado ao seu umbigo, mas também a construção de atitudes que aumentem a sua possibilidade de ser generoso e solidário, a fim de crescer integrando as diferenças, desenvolvendo a compreensão, a empatia e a realidade de coexistência.
