Era Uma Vez é agora!
04 de maio de 2020Laura Monte Serrat Barbosa

Era uma vez muitas pessoas que viveram seu tempo de produtividade no Século XX e em parte do Século XXI. Tinham uma vida muito atribulada. Inventaram máquinas e tecnologias para substituir o fazer dos humanos. O tempo livre que surgia com essas inovações ia sendo ocupado com mais coisas para fazer e, em vez de descansar, essas pessoas ficavam mais atribuladas.
O dia começava cada vez mais cedo e terminava cada vez mais tarde, com muito trabalho e pouco tempo para diversão, para descanso… para vida.
Uma dessas invenções levou o trabalho para dentro de casa e a casa para dentro do trabalho. Em vez de oito horas de trabalho, oito horas de convívio com a família e oito horas de sono, as coisas foram se misturando. O sono passou a ter um espaço de apenas cinco ou seis horas, quando o turbilhão do dia não ficava martelando na cabeça até as pessoas conseguirem dormir. A família passou a conviver na hora do almoço, ou na hora do jantar, pois com cada um correndo para um lado, preocupado com seus afazeres, não era possível muitas horas de convívio. Além disso, para casa, vinham também as tarefas da escola, do escritório, da fábrica, da loja e de tantos outros lugares. De oito horas, talvez sobrassem umas duas horas de convivência para fazer nada, conversar, perguntar sobre amenidades, ouvir música, rir e dançar.
O trabalho, sim, foi se avolumando; comeu três horas do sono, seis horas do convívio e passou a funcionar quase vinte e quatro horas por dia; durava mais ou menos dezessete horas diárias, dependendo da pessoa e da sua atribulação.
Nessa corrida, as pessoas atribuladas acabaram tendo dificuldades para fazer viagens, passeios, mergulhos no seu mundo interior; foram fugindo de si mesmas, terceirizando o convívio, tratando e medicando os vazios que a ausência de si causava.
Nessa corrida, uma parada, uma pisada no freio têm provocado inúmeras sensações nessas pessoas e naqueles que estão a sua volta.
E quem são essas pessoas? É a maioria de nós. Incluo-me nesse quadro e, por isso, pergunto:
Será possível, em vez de continuar enlouquecidos, trabalhando e trabalhando, em casa e na casa, dividir tarefas domésticas, organizar um tempo para o trabalho e aumentar um pouco mais o tempo para conviver com os nossos e descansar?
Conseguiremos modificar essa corrida desenfreada? Seremos capazes de rever valores de humanidade? Teremos condições de conviver com nossos amigos e parentes, mediados pelo bem querer?
Penso que podemos aproveitar o momento para conversar mais conosco e responder às perguntas:
Quem eu sou? Onde estou? O que já caminhei? Para onde desejo caminhar? Tenho escolhas? O que considero importante na vida que levo? O que desejo modificar? O que pode ser modificado em meu desejo?
Então, embebidos de nós, poderemos olhar para o outro, estar no lugar dele, compreender suas falhas, enxergar suas necessidades, confiar em suas possibilidades, oferecer condições de experiências, acreditar em suas escolhas, ouvir o que ele tem a dizer, argumentar e deixar um cantinho dentro de nós para recebê-lo, acolhê-lo e também para lançá-lo aos desafios que a vida coloca para todos nós!
