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EM TEMPOS DE MISTURA

04 de junho de 2020

Reflexões de uma educadora caminhante

Laura Monte Serrat Barbosa

Olhar fecundo – Cá 2020

Quando pequena, lembro-me de que só havia um telefone na travessa em que morávamos: o nosso.

Diante de uma urgência, todos os vizinhos iam à nossa casa para emprestá-lo. Por estratégia, penso eu, ele ficava bem perto da porta da entrada lateral da casa, e uma pessoa não necessitava entrar além da copa para utilizá-lo; ela teria uma visão da cozinha, que era geminada, e nada mais.

As visitas entravam pela porta da frente e tinham apenas a visão da sala e do escritório de meu pai, que ficava no mesmo ambiente.

Os íntimos chegavam, entravam por tudo, subiam nos quartos, desciam, andavam pela cozinha, pela copa, pela sala e pelo quintal. Lá, nessa época, ainda havia algumas árvores frutíferas, aquelas que não foram derrubadas para a construção da garagem, da lavanderia, de um quarto com banheiro (que fora morada da minha avó por um tempo) e do quartão, como chamávamos o quarto onde estudávamos, dávamos festas, fazíamos artesanato e tudo aquilo que uma porção de irmãs e um irmão, juntos, podiam fazer.

Éramos uma família populosa e que, quase sempre, teve mais um ou dois agregados para compartilhar o espaço.  Apesar do grande número de pessoas na mesma habitação, herdamos, como tantas outras famílias, a ideia de privacidade do Iluminismo, quando a arquitetura doméstica modificou-se, aparecendo espaços especiais para que os componentes da família dormissem com mais privacidade, superando a cultura anterior, da Idade Média, na qual o grupo familiar e os agregados dormiam no mesmo cômodo.

No meu tempo de criança, era comum, as visitas chegarem sem avisar e, às vezes, tínhamos que correr para deixar as coisas em ordem e não passar vergonha. Quem estava de pijama corria para se arrumar; quem já estava vestido tirava a bagunça do caminho ou preparava um café, enquanto meus pais entretinham as visitas no espaço da sala. 

Com o advento da Modernidade e da Pós-modernidade, os espaços foram diminuindo, as mulheres saíram para trabalhar e, então, as visitas, quando desejavam, combinavam os encontros por telefone.

A privacidade construída e a busca por identidade e individualidade foram modificando as relações humanas ao longo da história da humanidade. Da família matriarcal à família patriarcal; da família patriarcal à família nuclear; da família nuclear às famílias reconstituídas;

das famílias reconstituídas a uma dezena de formatos e composições familiares. Cada uma com seus hábitos e suas éticas em relação à convivência no espaço público (ou seja, viver em prol do bem comum) e em relação à privacidade (ou seja, viver o individual, o nuclear), o que, de certa forma, tem a ver com o grau de intimidade entre as pessoas de determinado grupo.

Até mais ou menos os anos 1960, as famílias educavam seus filhos considerando o mundo interno (responsável pelo que se passa dentro das pessoas), o mundo externo (aquele no qual é preciso viver, estudar, trabalhar e sobreviver), além de todas as pontes possíveis entre eles. Nesse tempo, as mudanças eram mais lentas, e a ideia de estabilidade, profissional e financeira, e de movimento familiar, de certa forma, era previsível. Público e privado diferenciavam-se entre si, e as pessoas surpreendiam-se pouco com as novidades que pudessem aparecer nessa dinâmica.

A história continuou, e o mundo da tecnologia começou a imprimir um ritmo diferente; sujeitos foram substituídos pela “pessoa objeto”, e o espaço interno passou a ser menos valorizado. O espaço externo passou a ser objeto de consumo e de descarte. Além disso, surgiu outro espaço a ser entrelaçado: o espaço virtual. O espaço que tem unidade de tempo, mas não tem unidade de lugar; que descentraliza, que desterritorializa, que se caracteriza por ser um espaço da não presença. Diferente do espaço presencial, onde “somos aqui”, no espaço virtual, “somos lá”.

Virtual, segundo Pierre Lévy*, é derivado de virtus (latim medieval), que significa força, potência; portanto, é o que existe em potência, e não em ato. Segundo o autor, o virtual atualiza-se sem passar pela concretização.

Apesar de virmos, como humanidade, aprendendo a fazer o enlace desses três espaços, fomos convidados, com a chegada de uma pandemia, a aligeirar o processo e a aprender a lidar com esse espaço virtual sem conhecer a sua cartografia em totalidade, sem ter desenvolvido as competências para atualizar e virtualizar; ou seja, fomos impulsionados a transformar ideias do que está por vir, inventando, produzindo qualidades novas, criando, mas sem ter definido, se quer, um código de ética para nos relacionar intensamente neste novo espaço.

Como na Idade Média, encontramo-nos em um aglomerado de pessoas, tarefas e sentimentos. Nossa casa passou a ser o ninho da família, o espaço da escola, a sala de espera e de atendimento do consultório, o restaurante, a lavanderia, o espaço de brincar e de trabalhar. Enfim, “tudo junto e misturado”.

Novamente, espaços indiferenciados!

Então, me pergunto: Como devemos entrar na casa das pessoas pela janela virtual? Como devemos receber quem chega pela janela virtual em nossa casa? Existe uma ética para as relações que se dão num espaço que não possui uma unidade de lugar? Precisamos nos vestir para falar com o médico numa consulta de telemedicina? Precisamos pentear os cabelos para conversar com a professora? Precisamos atender uma visita na sala ou podemos atendê-la no quarto? Conversamos com a professora particular estando deitados na cama, sentados no sofá ou, ainda, em frente à escrivaninha? O que é adequado nesta ou naquela situação?

Vamos pensar! Vamos discutir as questões ligadas ao espaço privado, ao espaço público, e às relações possíveis no espaço virtual.


* LÉVY, P. O que é virtual? Rio de Janeiro: Editora 34, 1996.

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