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ESPAÇO PÚBLICO X ESPAÇO PRIVADO EM CASA

12 de junho de 2020

Vera Lucia Germano Sicuro

Lendo o texto publicado na semana passada, fiquei pensando em situações domésticas onde, às vezes, fica difícil, para algumas pessoas, distinguir o que faz parte do espaço público ou do privado. Espaço este, que pode ser físico ou emocional.

Nestes tempos de pandemia, quando estamos em maior convivência dentro de casa, qual é o espaço púbico e qual é o privado? Será que o quarto de cada um é seu espaço privado? E o escritório, o quarto de brinquedos, a cozinha, as salas e os banheiros? E o espaço privado emocional, quando acontece ou, será que acontece?

Ao abordarmos este tema, difícil não pensarmos que estes conceitos mudam conforme a configuração familiar: famílias com crianças pequenas, com filhos de idades variadas, só de adultos, moradores de uma casa que proporciona (ou não) espaços individuais para seus membros. Difícil também não pensar, depois que se diferencia quais são os espaços físicos públicos dos privados, sobre como funcionam as regras para sua utilização e conservação. Tenho observado em muitas das famílias que atendo, muita dificuldade em lidar com este aspecto.

 Vejo algumas famílias com crianças de quatro ou cinco anos onde os pais dizem que cada uma é responsável pelo seu quarto, que lá podem brincar ou fazer o que quiserem e depois tem que arrumá-lo direitinho e que se isso não acontecer vão levar uma bronca e ficar de castigo… Fico pensando como estas crianças, nesta idade, neste período do desenvolvimento, vão se autogerir para cumprir com este grau de exigência? Como interpretam estas mensagens recebidas? Será que não estão no momento de aprender estes conceitos de liberdade, individualidade, organização, bem estar sentido com a organização? Será que não é o caso de fazer junto, de curtir este fazer, para que depois ele se torne uma necessidade dela mesma?

 Vejo também outras famílias, com filhos adolescentes,  que não lhes dão autonomia alguma: os pais entram nos quartos dos filhos sem pedir permissão, a qualquer hora, determinam de forma autoritária como devem ou não usar o tempo que ficam lá, e como devem organizá-lo.  Será que este comportamento dos pais é adequado, será que estas expectativas e/ou necessidades não poderiam ser discutidas e construídas a partir do diálogo entre as partes? Será que está sendo levado em conta que estes filhos estão sem a possibilidade de sair, encontrar com amigos, curtir seus prazeres fora de casa? Que estes filhos estão numa fase de verdadeira ebulição hormonal e emocional, e que isso muitas vezes se reflete no seu comportamento e na organização de seus pertences e do seu espaço físico?

Em compensação tenho observado estas mesmas famílias lidarem com os espaços públicos da casa como se fossem única e exclusivamente de responsabilidade dos pais. Eles que definem as regras de utilização e fazem sozinhos a sua organização e manutenção. Se tornando mais um motivo de sobrecarga e reclamação da parte dos pais que dizem que se sentem como escravos da casa e dos filhos, que não podem relaxar um momento sequer pois tem ainda as exigências profissionais que não diminuíram, as preocupações com a contaminação devido à pandemia, etc,etc… Nestes casos, por que não contar com os filhos neste processo de cuidar das áreas públicas da casa?

Conheço uma família que resolveu estas questões de organização e manutenção da casa de uma forma interessante. Depois de discutirem o que seria espaço público e privado da casa, e como poderia ser a utilização dos mesmos, juntos fizeram uma lista de todas as tarefas que precisavam ser contempladas para a organização e manutenção da casa. Como a auxiliar doméstica estava afastada em função da pandemia, resolveram que todos deveriam participar destas tarefas para que ninguém ficasse sobrecarregado. Começaram assinalando as tarefas que só poderiam ser realizadas pelos adultos, depois passaram para as tarefas que poderiam ser divididas entre os adultos e os filhos mais velhos e por ultimo, aquelas que poderiam ser feitas também pelos filhos menores. Depois de realizadas estas classificações, cada um se inscreveu, livremente, para fazer aquelas tarefas que julgava mais fáceis ou interessantes, de acordo com suas habilidades. É claro que sobraram algumas para as quais ninguém se inscreveu. Isso gerou nova conversa para decidir como resolver esta questão: resolveram fazer um rodízio onde todos as fariam, por um curto período. Resolvidas estas questões, puseram o plano em prática por uma semana e depois, sentaram novamente, discutiram a funcionalidade dos combinados e corrigiram a “rota”.

Até agora falamos do espaço físico, mas e o espaço emocional? O que faz parte do espaço público e do privado? Como lidar com este período de “alagamento” sentido no espaço emocional compartilhado? Como conseguir um tempo de individualidade para se “nutrir”, para recarregar as “baterias”? Esta é uma tarefa desafiadora, pois pressupõe que cada um(a) saiba o que o(a) ajuda neste momento e depois que tenha a coragem de reivindicar estes seus momentos, sem se sentir culpado(a) por isso.

Muitas pessoas podem se perguntar que importância tem pensar sobre isso?

E eu respondo que, do meu ponto de vista, como terapeuta familiar, esta reflexão é muito significativa. Ajuda a definir regras de convivência, estimular a autonomia, trabalhar a cooperação, a diferenciação, melhorar a comunicação, diminuir conflitos!

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