A família no processo de avaliação da aprendizagem

Este texto, de autoria da psicóloga Vera Lucia Germano Sicuro (CRP 08/0222) faz parte do livro “Avaliar para nós é…”, publicado pela editora Melo em 2011:

Quando, em 1988, criamos a Síntese, éramos psicólogas e psicopedagogas com diferentes histórias de ligação com o processo da aprendizagem, porém, todas inquietas e preocupadas com o estereótipo depositado pelos responsáveis nas crianças que apresentavam dificuldades na aprendizagem.
Tínhamos, por vezes, a impressão que os pais nos entregavam seus filhos para a avaliação do seu processo de aprender esperando uma mudança “mágica”, e que muitas vezes era difícil para estas crianças permanecerem no processo corretor, pois algo que não conseguíamos bem identificar acontecia e fazia com que o processo fosse “abortado”. Percebíamos, em muitos casos, o desejo dos pais em colaborar para uma mudança no padrão de aprendizagem de seus filhos, mas, na medida em que se efetivava por parte da criança uma demanda diferente em relação à conduta dos pais, estes pareciam se sentir “ameaçados” e interrompiam o processo. Ficava, para nós, cada vez mais claro que o funcionamento da família interferia significativamente no processo de manutenção do sintoma apresentado pela criança em relação à sua aprendizagem, seja facilitando, dificultando e algumas vezes até impossibilitando o processo terapêutico.
Percebíamos que muitas vezes, a criança, nosso cliente:
– assumia responsabilidades que não eram suas;
– vivia uma história que pareia não ser sua;
– buscava uma competência muito além ou muito aquém do que era capaz;
– parecia proteger outros elementos do grupo familiar com sua conduta considerada inadequada;
– se permitia ser usado como “bode expiatório” na escola.
A equipe se questionava! As psicólogas, terapeutas familiares com formação sistêmica, acreditavam que o sintoma apresentado por um membro, dentro de um sistema familiar, não dizia respeito apenas ao portador da queixa de dificuldade para aprender, era representativo do funcionamento familiar, de seu padrão de relação. E começaram a se perguntar se havia alguma relação entre a forma de aprender da criança e o padrão de aprendizagem de sua família. As psicopedagogas não tinham esta mesma formação sistêmica, mas seu olhar era em uma direção muito parecida! A equipe (psicólogas e psicopedagogas) começou então a questionar se havia alguma relação entre o jeito da criança, nossa cliente, aprender e o de sua família. E se havia relação, que influência tinha na criação e na manutenção da dificuldade que a criança apresentava? Será que esta compreensão, se verdadeira, podia ajudar na superação da dificuldade da criança? Como poderíamos avaliar isso? Eram muitas perguntas…
Em teoria, sabíamos que é dentro do seio familiar que a criança começa suas primeiras aprendizagens sobre quem é; o que pode ou deve fazer ou mesmo sentir em determinadas situações; como lidar com a novidade, o desafio, o sucesso, a frustração; as suas potencialidades e os seus limites, entre outros ensinamentos (intencionais ou não).
Não pretendíamos, de forma nenhuma, ao dar um enfoque sistêmico ao processo diagnóstico das dificuldades de aprendizagem, colocar o foco na família em detrimento do indivíduo, pois isso seria incorrer no mesmo erro da visão linear, acreditando na existência de uma causa única para as dificuldades de aprendizagem. Nossa crença, dentro de uma visão sistêmica e interacionista é de uma investigação multicausal, buscando aspectos relacionados ao elemento portador do sintoma, aqueles ligados aos contextos onde a dificuldade de aprendizagem se manifesta, assim como aqueles que dizem respeito às relações entre o aprendente e o ensinante.
Uma das características básicas da visão sistêmica é o movimento de ampliar e focar, isto é, ver o indivíduo ora como um sistema, um ser único com peculiaridades, ora como um subsistema ou parte de sistemas maiores, como a família que lhe deu origem e o meio social e escolar em que vive e convive. Consideramos então que a família é variável interveniente na identificação, compreensão, prognóstico e tratamento das dificuldades de aprendizagem e, como tal, um olhar para ela poderia complementar a avaliação da forma como já era feita. Em função deste contexto, mudamos a forma como nos referíamos ao cliente foco principal de nossa avaliação. Antes o chamávamos de paciente ou paciente identificado e passamos a designá-lo como Elemento Portador do Sintoma (EPS).
As psicólogas integrantes da equipe da Síntese sabiam como fazer sessões de avaliação familiar quando havia queixas de dificuldades de vinculação e de comunicação, entretanto, neste momento, era preciso conceber uma situação onde se pudesse avaliar também o padrão de aprendizagem. Era necessário unir a visão da terapia familiar sistêmica com a da epistemologia convergente (que fundamentava a ação das psicopedagogas).
Imaginamos, então, que esta avaliação do padrão de aprendizagem familiar poderia ser feita em uma sessão onde pudéssemos reunir todos os membros do grupo familiar e observar como reagem a uma situação onde haja a necessidade de uma aprendizagem grupal. Precisava ser vivencial, para que a família, de forma não consciente, demonstrasse seu padrão. A coordenação do encontro ficaria a cargo da psicóloga, que também observaria o padrão de funcionamento familiar, mas contaria com a participação de uma psicopedagoga que focaria sua observação no EPS, em como ele age e reage dentro deste sistema.
Precisávamos dar um nome a este momento. As psicopedagogas, que tinham formação fundamentada na Epistemologia Convergente, lidavam com o conceito de operatividade, que tinha a ver com a ação do aprendiz sobre o objeto a ser aprendido. Então escolhemos chamá-lo de Entrevista Operativa Familiar (EOFa).
Ao determinar o que seria privilegiado na observação deste sistema familiar, elencamos:
– as crenças e os valores e os mitos desta família;
– as expectativas quanto ao desempenho do EPS e dos demais membros em relação à aprendizagem formal e informal;
– a sua forma de organização hierárquica;
– o seu padrão de comunicação familiar e as fronteiras emocionais entre os membros;
– o papel do sintoma, apresentado como queixa para este sistema, na primeira consulta;
– o ritmo do EPS, na compreensão, ação, reflexão e comunicação, em relação ao ritmo dos outros membros da sua família;
– o papel do elemento portador do sistema (EPS) neste sistema familiar;
– o espaço existente para o não saber;
– o padrão de escolha;
– o espaço existente para o processo de reflexão;
– as alianças, os conflitos e exclusões que ocorrem entre seus membros;
– o processo de disciplina existente;
– a crise vital em que se encontra este grupo familiar;
– a demanda social – as famílias de origem, o contexto social atual, a escola.
A equipe da Síntese, na construção da EOFa, determinou que a mesma tivesse uma duração de 90 minutos, aproximadamente, e fosse constituída de três momentos: apresentação, construção e reflexão.
A tarefa do primeiro momento, da apresentação, é cada um dos membros que compõem o sistema familiar em questão falar de si a partir de algumas perguntas usadas como disparador.
O segundo, da construção, é quando a família trabalha a partir de uma consigna que a estimule a cumprir uma tarefa conjunta. Às terapeutas que participam deste encontro compete, em silêncio, observar e fazer anotações sobre os aspectos que dizem respeito ao funcionamento familiar na realização da tarefa proposta. Como a EOFa é um momento extremamente complexo e rico em detalhes, percebemos que muitas vezes fazer anotações apenas era pouco. Passamos então a gravá-la em fitas de VHS para depois analisá-la e fazer registros mais detalhados. Hoje, acompanhando a evolução da tecnologia, é o computador que nos auxilia nesta tarefa. No início, ao pedirmos permissão às famílias para realizar a filmagem da sessão, recebíamos muitas negativas, mas hoje este procedimento se tornou rotina e apenas comunicamos a utilização de tal recurso.
No momento da reflexão é pedida à família uma descrição da sua produção e do processo utilizado para o cumprimento da tarefa proposta. Em seguida, são estabelecidas analogias da forma de ação e interação na realização desta tarefa com outros momentos/tarefas na vida deste grupo familiar.
Restava ainda definir quem seriam os membros do grupo familiar a serem convidados para participar da EOFa. A princípio pensamos nas pessoas que moravam na mesma casa que o EPS, mas logo percebemos que em algumas famílias os avós, a madrinha, a babá ou a nova família de uma das figuras parentais, entre outras, tinham papel relevante naquele caso e deveriam ser convidadas também. Por vezes é necessário fazer mais de uma EOFa, pois não é interessante ou conveniente misturar os subsistemas a que a criança pertence, como no caso de pais separados e com guarda compartilhada, pois em cada casa mudam as regras e as formas de vivenciar as ligações afetivas.
Com estes aspectos definidos, nos questionamos sobre o momento do processo de avaliação em que deveríamos inserir a EOFa. Como não tínhamos ainda uma premissa sobre isto, experimentamos de diversas formas, mas chegamos à conclusão de que o melhor momento é logo no início, após a primeira consulta, antes ou logo após a Entrevista Operativa Centrada na Aprendizagem (EOCA).
Nas primeiras vezes em que utilizamos a EOFa no processo de avaliação das dificuldades de aprendizagem, levantávamos as hipóteses a partir dela e precisávamos de muitas sessões para confirmá-las. Com o passar do tempo e a apuração do nosso olhar, fomos obtendo uma segurança maior acerca de nossas percepções, e a EOFa se mostrou um recurso de avaliação extremamente rico, nos permitindo levantar inúmeros aspectos no primeiro sistema de hipóteses e com isso planejar melhor a continuação do processo avaliativo.
Fazemos questão que a psicóloga saiba o mínimo possível sobre o caso em questão antes de participar da EOFa para que possa entrar “descontaminada” das hipóteses levantadas pela psicopedagoga que ouviu, na primeira consulta, a queixa do ponto de vista dos pais. Percebemos que esta estratégia lhe permite perceber melhor os aspectos, já descritos acima, ocorridos no decorrer da EOFa.
Voltando a falar do período de “criação” da EOFa, é importante dizer que durante dois anos, testamos, desenvolvemos e sistematizamos a técnica utilizando-a em 72 casos de avaliação de crianças que apresentavam dificuldades na aprendizagem formal. Criamos então a nossa metodologia para avaliar sujeitos com dificuldades de aprendizagem e a batizamos: “Processo Diagnóstico da Dificuldade de Aprendizagem num Enfoque Sistêmico”. Sua apresentação formal ao meio científico aconteceu no congresso: “1ªs Jornadas de La Fundación para Asistencia, Docencia e Investigación Psicopedagógica” e a 3ª Jornada Del Centro de Estúdios Psicopedagógicos” Propuestas Psicopedagógicas para E1 2.000 – Buenos Aires – Argentina, em 1991.
Desde então, além de já tê-la utilizado, até o momento em que escrevo este texto, 1.161 vezes temos supervisionado muitos outros profissionais que também passaram a utilizá-la.
Outro aspecto que constatamos ao longo do tempo, é que a EOFa, como proposição de uma situação inusitada de aprendizagem familiar, além de nos permitir conhecer os aspectos necessários à avaliação do EPS, se torna também um momento lúdico para a família, muitas vezes de resgate de aspectos perdidos na convivência do dia a dia, ou ainda, uma aprendizagem que pode ser levada para fora dos limites da Síntese (e muitas vezes é).
Outro recurso criado na ocasião, por nossa equipe, para complementar os dados levantados durante a EOFa e utilizado ainda hoje é o “Questionário Trigeracional”. Ele é entregue a cada um dos participantes da EOFa que saibam escrever e tenham compreensão para preenchê-lo, obviamente, e às vezes enviado a algum membro ausente, porém identificado como informante relevante na compreensão da dinâmica do caso em questão. Este questionário deve ser respondido em casa e entregue depois para que após ser lido e analisado, a equipe possa levantar questões a serem aprofundadas no decorrer da Entrevista Histórica.
Este instrumento pesquisa:
* sobre a pessoa que responde ao questionário:
– dados de identificação;
– dados da sua família origem;
– dados sobre a sua família atual;
– dados sobre seu cônjuge e seu casamento atual;
– dados sobre seus casamentos anteriores, se for o caso;
* sobre motivo da procura:
– informações referentes à compreensão que esta pessoa tem em relação aos dados da procura desta avaliação;
* sobre as rotinas:
– pessoais e familiares;
* sobre outros dados pessoais, da família atual e da família de origem:
– doenças;
– mortes;
– vícios;
– segredos;
* um espaço livre:
– para informações que lhe pareçam pertinentes ou importantes.
Ao terminar esta exposição, permeada por recordação de mais de vinte anos de trabalho em equipe, cito o poema de Madalena Freire:
Eu não sou você e você não é eu
Eu não sou você
Você não é eu
Mas sei muito de mim
Vivendo com você
E você, sabe muito de você vivendo comigo?
Eu não sou você
Você não é eu
Mas encontrei comigo e me vi
Enquanto olhava para você
Na sua, minha, insegurança
Na sua, minha, desconfiança
Na sua, minha, competição
Na sua, minha, birra infantil
Na sua, minha, omissão
Na sua, minha, firmeza
Na sua, minha, impaciência
Na sua, minha, prepotência
Na sua, minha fragilidade doce
Na sua, minha, mudez aterrorizada
E você se encontrou e se viu, enquanto olhava pra mim?
Eu não sou você
Você não é eu
Mas foi vivendo minha solidão que conversei
Com você, e você conversou comigo na sua solidão
Ou fugiu dela, de mim e de você?
Eu não sou você
Você não é eu
Mas sou mais eu, quando consigo
Lhe ver, porque você me reflete
No que eu ainda sou
No que já sou e
No que quero vir a ser…
Eu não sou você
Você não é eu
Mas somos um grupo, enquanto
Somos capazes de, diferenciadamente,
Eu ser eu, vivendo com você e
Você ser você, vivendo comigo

E, proponho uma reflexão a nós profissionais da educação:

– de que forma este poema me toca?

– o que ele tem a ver com a minha fusão ou diferenciação em relação ao processo de aprendizagem do outro, meu aluno, filho ou cliente?

– o quanto de mim eu projeto no meu aluno/filho/ cliente, de forma a não conseguir enxergá-lo tal qual realmente está?

– o quanto eu me permito conhecer a partir do meu aluno/filho/cliente?

Referências:

Freire, Madalena. O que é Grupo. In: Ester Grossi (org). A Paixão de Aprender. Petrópolis, RJ, Ed. Vozes, 2009.

Carter, Betty; MCGoldrick, Mônica; trad. Veronese, Maria Adriano Veríssimo. 2ª ed. 2ª reimpressão. As Mudanças no Ciclo de Vida Familiar: uma estrutura para a terapia familiar. Porto Alegre, RS, Artmed, 2001.

Vasconcellos, Maria José Esteves de. Pensamento Sistêmico – O novo Paradigma da Ciência. Campinas, SP, Papirus, 2002.

Nichols, Michael P.; Schwartz, Richard C.; trad. Lopes, Magda Frença. 3ª ed. Terapia Familiar: conceitos e métodos. Porto Alegre, RS, Artmed, 1998.

Minuchin, Salvador; trad. Cunha, Jurema Alcides. Famílias: funcionamento e tratamento. Porto Alegre, RS, Artes Médicas, 1982.

Krom, Marilene. Família e Mitos – prevenção e terapia: resgatando histórias. São Paulo, SP, Summus, 2000.

Souza, Anna Maria Nunes de. 3ª ed. A Família e seu Espaço – uma proposta de terapia familiar. Rio de Janeiro, RJ, AGIR, 1997.

Equipe “Síntese – Psicologia e Pedagogia” Processo Diagnóstico da Dificuldade de Aprendizagem num Enfoque Sistêmico. In: Revista Psicopedagogia, publicação da Associação Brasileira de Psicopedagogia, nº 22 p. 33 a 39, 1991.

Uma reflexão sobre a escola que está por vir

Laura Monte Serrat Barbosa

Qual Escola Ocupará o Lugar Daquela que Estava Aqui? Esse foi o tema provocador que a ABPp Seção Piauí lançou para a abertura das atividades de 2021, após ter lido um artigo que escrevi, no Blog da Síntese – Centro de Estudos da Aprendizagem, e que tinha como título: Cadê a Escola que Estava Aqui?
Essa provocação fez-me pensar muito e levou-me a tramar tudo que já estudei, o que já vivenciei, o que já observei, o que vivo hoje, como psicopedagoga e educadora, os diálogos com pais, profissionais da escola, alunos, os estudos que venho fazendo sobre a Complexidade e a Transdisciplinaridade, as discussões profissionais da equipe da Síntese, da qual sou parte integrante, a fim de tentar tecer uma reflexão que vá além da que está posta, a respeito de como a escola ensinará durante a pandemia que acometeu o mundo em 2020, e também após esse período que, no início de 2021, ainda não se sabe quando será.
A discussão atual parece ficar mais relacionada ao ensino remoto, ao presencial ou ainda ao ensino híbrido, à tecnologia, aos recursos que estão sendo criados para que as escolas possibilitem aprendizagens aos seus alunos.
Minha reflexão, no entanto, vai por outro caminho. Independente se a escola vai adotar uma forma de ensino virtual, presencial ou híbrido após o afastamento provocado pela pandemia, penso que se deveria aproveitar a parada, que impactou a vida de todos e também da escola, para realmente transformar os discursos em ação.
Ao pensar sobre a pergunta da ABPp Seção Piauí e sobre as Cirandas Virtuais de Educadores e de Pais, organizadas pela Síntese, nas quais se discutiu o tema Cadê a Escola que Estava Aqui?, levantei pontos a serem considerados por esta escola que ocupará o espaço daquela que estava aqui.
Dentre muitas possibilidades, destaquei sete grandes considerações a serem feitas por todos nós que pensamos e fazemos a escola no país.

1) Somos natureza
A escola que desejamos está sendo convidada a considerar que somos natureza, e não donos dela. Somos seres biológicos, descendentes de uma linhagem que teve um percurso muito longo até conseguir falar, simbolizar e expressar o que pensa. No entanto, mesmo sem falar, já tínhamos o que Maturana (2004) chamou de “linguajear”, ou seja, uma forma de conviver que deixou de ser ocasional e passou a coordenar comportamentos, a ponto de eles tornarem-se consensuais e serem conservados nas gerações seguintes. O “linguajear” é uma forma de coordenar ações e emoções, chamada também de conversar, uma forma de operar na convivência, um conversar sem linguagem oral. “[…] o humano surgiu quando nossos ancestrais começaram a viver no conversar como uma maneira cotidiana de vida […] (MATURANA, 2004, p. 31).
Como simples integrantes da natureza, precisamos aprender seus segredos, conviver com ela, conhecê-la, para poder conservá-la, ao mesmo tempo que nos conservamos como espécie, como seres viventes do nosso planeta. Trocmé-Fabre (2010) diz que aprender não é somente uma ação vivida nas escolas e meios educativos; antes de tudo, é uma ação que pertence à vida, a todos os seres viventes do planeta. A esse processo, ele chama de “aprendência”.

É quase certo que o Homo não teria sido “erectus”, nem “faber”, nem “loquens”, ainda menos “sapiens sapiens”, nem como ele é chamado atualmente “communicans”, se ele não tivesse sido, antes de tudo, “cognoscens”, ou seja, habitado pelo impulso da aprendência, pelo desejo de conhecer e de reconhecer que caracteriza todo organismo vivente. (TROCMÉ-FABRE, 2010, p. 27).

Para Paín (1985), no processo da aprendizagem, coincidem um organismo, um nível de desenvolvimento cognitivo, um corpo, um sujeito relacionado e um momento histórico. Para estudá-lo e compreendê-lo, faz-se necessário articular distintas estruturas teóricas.
Uma das possibilidades de aprendizagem acontece na escola, embora não aconteça somente lá; nesta escola que pensei, pelo fato de considerar que somos natureza, será possível também considerar as questões da ancestralidade, da ecologia, da coexistência e de uma vida sustentável.
Como possibilitar que os aprendizes aprendam a natureza como a casa de todos os seres viventes e pensem em nós, humanos, como integrantes dessa morada?
Que pensamento regerá a organização curricular, de forma que ela possa ser vivida, pensada e utilizada como instrumento de preservação e sustentabilidade, ao mesmo tempo em que seja promotora de inovação?
O que já sabemos sobre isso? O que já foi feito a esse respeito?
Talvez possamos começar explorando e conhecendo melhor nosso contexto natural.

2) Somos sociais e construtores de cultura
Essa consideração importante está ligada ao fato de sermos históricos e termos constituído uma linguagem logo após o desenvolvimento da laringe. Isso permitiu que construíssemos a linguagem oral, os símbolos, as sequências sintáticas para expressá-los, e as manifestações da cultura em suas mais diversas formas, como a arte, os ritos, os contos, a palavra, assim projetando o imaginário de forma mais abstrata que os ancestrais, os quais o projetavam fazendo ferramentas, por exemplo.
Nossa história permite-nos conhecer todos os saberes que foram sendo registrados até os dias de hoje. Podemos constatar que esses conhecimentos foram sendo divulgados, aprendidos e, nos distintos povos e distintos momentos históricos, tiveram sua importância; no entanto, foram sendo ampliados, aprofundados, transformados, multiplicados e deram origem a novos saberes, a partir de novas configurações dos contextos.
Assim, fomos constatando a dinâmica da origem e do percurso de vida dos seres humanos. Aprendemos com o passado, mas não podemos esquecer que, como seres históricos, precisamos continuar esse processo dinâmico. Não tem sentido aprender a mesma coisa e do mesmo jeito que nossos antepassados. Precisamos, como escola, respeitar e promover a curiosidade, pois é ela que move a investigação, a pesquisa e a construção de conhecimentos. Precisamos criar problemas e resolvê-los para o mundo de hoje, sem descartar o aprendido.
Será que existe outra forma de aprender que não seja copiando da lousa? Será que existe outra forma de aprender que não seja apenas memorizando? Será possível ensinar a pensar sem perguntas, apenas com certezas que foram vividas em outra época e outro lugar?

3) Somos seres de relação: aprendemos em grupo, no grupo e para o grupo
Aprender numa situação na qual estejam várias pessoas sem negligenciar as singularidades de cada uma, e também cuidar das singularidades sem desvalorizar o todo, é um desafio; porém, é possível vencê-lo se pensarmos o individual e o social como uma unidade, na qual é possível articular as partes sem misturá-las e sem dicotomizá-las quando, por exemplo, propormos tarefas comuns a ser realizadas no coletivo.
Entendendo coletivo como aquilo que pode ser construído para o bem comum, a ideia não resulta em algo palpável e visível, mas sim impessoal. Ele surge como um elemento que traz um fluxo entre ser indivíduo e ser social, como articulador da transformação do que existe, visando às novas situações. Para Guattari (1992, p. 20), o coletivo é entendido como “uma multiplicidade que se desenvolve para além do indivíduo, junto ao socius, assim como aquém da pessoa, junto a intensidades pré-verbais, derivando de uma lógica dos afetos, mais do que de uma lógica de conjuntos […]”. Sendo assim, coletivo não é uma coleção de pessoas, e sim o co-engendramento dos indivíduos e da sociedade. Nesse sentido, instituir a possibilidade de aprender em grupo, dentro da escola, pode levar ao desenvolvimento de uma capacidade de valorização e de vivência do coletivo.
Para criar a vivência do coletivo, é preciso pensar junto, planejar junto e fazer junto o que foi pensado e planejado; certamente, isso contará com as contribuições individuais, as quais vão se transformando no interior do grupo até se tornarem um objetivo e uma motivação coletiva.
Assim, além dos estudos sobre grupo, a promoção da vivência grupal para o corpo docente, para a gestão, para a comunidade familiar e para os aprendizes faz-se urgente. Não desenvolvemos a alteridade, a empatia e a cooperação de maneira mágica; precisamos viver, experienciar, registrar as experiências e ir pensando que, além da autonomia social, intelectual e moral, precisamos preparar a humanidade para o desenvolvimento da ontonomia. A construção desse sentimento de coletividade possibilita a preocupação e o cuidado com aquilo que é de todos os seres viventes. É a partir da vivência do conceito filosófico de alteridade que aprendemos a nos colocar no lugar do outro, a compreender o outro que compartilha o mesmo espaço e o mesmo tempo, mas também a viver para fazer um mundo que vá se tornando sempre melhor para si, para o grupo, para o planeta e, inclusive, para aqueles que não compartilharão o mesmo espaço, nem o mesmo momento histórico, ou seja, aqueles que ainda estão por vir.
Segundo Barros (2005), a ontonomia considera o si mesmo, os outros e as coisas para a formação de um ser humano capaz de constatar o que é essencial para a sua natureza, para a realidade em que vive e para as necessidades dos outros. Assim, ele vai se comprometer e responsabilizar por suas ações; respeitar os outros e a natureza; desenvolver uma conduta ética que se revela quando o sujeito se importa com o que faz, com a maneira de fazer e com o impacto que sua ação pode produzir no contexto natural, cultural e relacional.
Iniciar a aprendizagem em grupos é uma possibilidade que tem sido pouco vivida nas escolas. Normalmente, as tarefas são ofertadas para ser resolvidas individualmente; a confiança de que a partilha e o diálogo contribuem para a aprendizagem nem sempre é uma realidade. Não raramente, as tarefas são comparadas de tal forma que, em vez da cooperação, incentivamos a competição para alguns e a desistência para outros.
Como atingir um objetivo tão amplo em, aproximadamente, vinte anos de formação de um sujeito aprendiz, na escola?
Em que momento podemos iniciar a preocupação de nossos aprendizes com o outro, com o ambiente e consigo mesmo?
Como promover ações em que todos trabalharão em função de um objetivo?
A cooperação e a competição são aprendidas na convivência?
Em nossas atividades de aprendizagem escolar, temos dado mais ênfase à competição do que à cooperação?
Será possível desenvolver a ontonomia apenas em situações de aprendizagem e ensino frontal?

4) Vivemos em espaços e entre espaços
Ao pensar no processo de aprender, consideramos que os aprendizes estabelecem interações: com o espaço externo, que é o espaço que pode ser percebido e considerado como um espaço objetivo, no qual é possível se estabelecer uma estrutura vincular real (VISCA, 2010) entre os protagonistas da escola e o objeto de estudo; com o espaço interno, que é dentro de si, onde se encontram as fantasias, os sonhos e as emoções que, na relação com o outro, coloca-se em jogo o que Visca (2010) chamou de estrutura vincular virtual; e, mais recentemente na história da humanidade, com um espaço que é espaço que não se opõe ao espaço real, ao mesmo tempo em que não possui um território objetivo e caracteriza-se por ser um espaço de não presença, ou seja, o espaço virtual propiciado pela tecnologia.
Nesse momento, além de pensar nos espaços com os quais o aprendiz interage para aprender, gostaria de pensar nos espaços que a escola pode oferecer e utilizar para atender às necessidades dos processos de aprender que acontecerão em seu interior e fora dele, nos espaços intra e extraescolares, como também no espaço virtual.
A escola de hoje está convidada a considerar que a utilização de apenas o seu espaço interno, intraescolar, para oferecer experiências de aprendizagem, não é suficiente. No entanto, na composição de seu espaço interno, precisa pensar em espaços que acolham a objetividade e a subjetividade de seus aprendizes, que promovam o desenvolvimento da memória e da imaginação, que possibilitem o autoconhecimento e o conhecimento dos outros e do mundo e que dialoguem com o espaço externo da escola e da comunidade, a fim de que o conhecimento a ser aprendido possa ser significativo e útil para os avanços necessários, assim como possa fazer sentido para aqueles que aprendem.
Segundo Serafini et al (2015), fazer da escola um lugar de aprendizagem a partir do espaço é desafiador. “O desafio é transformar cada escola/espaço/ambiente em um lugar de relações, um lugar em que se aprende, ensina, educa, educa-se, que valoriza os bens naturais e culturais disponíveis.” (p. 126).
Em outras palavras, uma escola que permita o desenvolvimento das estruturas vinculares real e virtual entre escola, aprendiz e conhecimento.
Assim, podemos pensar numa escola em que a preocupação ou não com o espaço, com o cuidado, com a presença de estética, com a escolha dos objetos e com o espaço para a convivência pode educar e emanar conhecimentos e saberes para a formação de seus aprendizes, sejam eles positivos ou não.
O que se aprende em um espaço descuidado? E num espaço cuidado?
O que se aprende em um espaço em que seus elementos estão disponibilizados de qualquer forma? E num espaço em que existe a preocupação em compor com a arte, de forma a valorizá-la?
O que o espaço dessa escola pretende emanar?
Da mesma forma, existem tantas outras perguntas que podemos fazer, a fim de refletir sobre esse caminho.
Por outro lado, a escola precisa também conhecer o espaço geográfico onde se encontra, a fim de poder utilizá-lo. A realidade, por mais bela ou cruel que seja, pode convidar para ações possíveis, em parcerias. Talvez seja possível pensar num currículo no qual o conhecimento seja instrumento de transformação do espaço e das pessoas.
Além disso, com o advento da cibernética, passamos a pensar num espaço que não é espaço objetivo e que passou a ser acessado pela escola em geral, mais frequentemente durante a Pandemia de Covid-19, em 2020.
O espaço virtual, no entanto, precisa ser estudado pela escola como um instrumento que veicula a informação e o conhecimento já construído, que possibilita a pesquisa, que oferece formas diferenciadas de comunicação, que aproxima distâncias e permite conhecer, de maneira dinâmica, outras realidades e outras culturas. Assim, ele precisa também ser cuidado, com a preocupação de que seja um espaço de descoberta e aprendizagens, o qual possibilite a comunicação eficaz, o debate, a exposição de ideias, as discussões, a pesquisa e a investigação. Também é um espaço/ambiente educativo, sendo importante destacar o cuidado com o tempo de uso, com a saúde e com a artificialidade ou a autenticidade das relações.
A escola atual está convidada a pensar na articulação desses espaços para que seus aprendizes possam aprender a partir das interações possíveis com eles e entre eles. Nas reflexões com suas equipes, é importante introduzir o tema do espaço como ambiente educativo, por meio do qual se pode aumentar ou não o grau de autenticidade das aprendizagens.
O que o espaço tem a ver com a promoção de relações saudáveis na escola?
É possível, por meio do cuidado com o espaço/ambiente escolar, instigar os aprendizes para estudos necessários?
É importante a presença da arte no espaço escolar? Por quê? O que mais é possível?
Como se encontra o espaço da escola na qual trabalhamos?
Quais transformações são necessárias e possíveis?
O que estamos possibilitando, de aprendizagens, por meio desse espaço?
Temos aproveitado os espaços extraescolares para veicular a aprendizagem? Como?

5) Aprendizagem como processo de aprendência
Essa contribuição, sistematizada por Trocmé-Fabre (2004; 2010), tem como fundamento a transdisciplinaridade que considera a aprendizagem como uma condição de todos os seres viventes; o ser humano e todos os outros – animais, plantas, insetos, bactérias, vírus e células – aprendem.
Segundo Maturana (2000), os viventes aprendem porque estão em coexistência com os outros e com o ambiente. O processo de aprender promove transformações que não são atos apenas do aprendente, mas também do meio no qual ele se encontra. As transformações acontecem naquele que aprende e em seu contexto, o que caracteriza a aprendizagem como resultante de um processo histórico. Por isso, não se fala em aprendizagem como aquisição de novos conhecimentos, mas sim como um processo que é próprio dos viventes.

[A história é, portanto,] a transformação ao redor de algo que é conservado. Se nada é conservado, não há história. […] O que conservamos abre espaço para o que podemos mudar. […] E isso ocorre no intervalo de tempo em que os sistemas vivos e os meios mudam de modo coerente, conjuntamente. (MATURANA, 2000, p. 88).

Ao voltar sua preocupação para o aprender do ser humano, Trocmé-Fabre (2010) aborda que aprender não é fruto da ação de dar e receber um saber, o qual é considerado como uma entidade externa a nós. “Aprender é um processo de criação de laços em nossa vida mental, afetiva, sensoriomotora, neurológica. Esses laços são, fundamentalmente, complexos, transitórios, adaptáveis, dinâmicos e eurísticos.” (TROCMÉ-FABRE, 2010, p. 28).
Se todo sistema vivo é entendido pela visão sistêmica como capaz de aprender, por que que algumas pessoas não aprendem? Certamente, afirma a mesma autora, por se encontrar paralisadas, decepcionadas, com medo de fracassar, de não ser compreendidas, pois também é possível aprender na interação com o contexto no qual se é incapaz de aprender. Assim, não será mais possível se utilizar de mecanismos de autorregulação, de adaptação ativa e de evolução.
Essa reação diz respeito ao que Visca (2015) chama de obstáculo à aprendizagem. A aprendizagem é um processo evolutivo que resulta da interação das pessoas que aprendem com seu meio, pela qual vai construindo quatro grandes sistemas: o sistema afetivo, o sistema motor, o sistema simbólico e o sistema operatório. Sua evolução dá-se em espiral; portanto, acontece em um processo histórico, no qual o sujeito vai aprendendo conjuntamente com os contextos nos quais vive e convive: com a mãe ou com a pessoa que desempenha esse papel, com a família da qual faz parte, com a comunidade com a qual interage e com a instituição educativa onde procede suas aprendizagens formais. Também aprende com o tempo histórico em que vive, relacionado à sua história e à dos outros com quem convive, mas também com a história pregressa de seus antepassados.
Trocmé-Fabre (2010) aborda que a capacidade humana de aprender manifesta-se no nível biológico, no nível social e no nível que chamou de “significância” e que pode acontecer de forma simultânea no plano individual e grupal; também se manifesta de forma implícita e explícita, resultando de um espaço/tempo individual e da humanidade.
Nesse percurso, saber e não saber são atos possíveis, que têm a ver com o tempo, com o momento do aprendiz, e não permite mais a avaliação restritiva: um sabe e outro não sabe, e sim traz a possibilidade de constatar que entre saber e não saber existe a possibilidade do “ainda não”.
Saber e ainda não saber não obstaculiza, mas abre possibilidades de vir a saber. A “aprendência” abre espaço para a superação das dicotomias estabelecidas na escola do “ou”: certo ou errado; êxito ou fracasso; campeão ou perdedor… O processo abre espaço para o que está por vir, e não determina que os aprendizes ocupem espaços de bom ou mau aluno, de primeiro ou último, de quem compreende ou não compreende, de quem aprende para ser intelectual ou para desenvolver um trabalho de outra ordem…
Não se passa da condição de não compreensão para a de compreensão por receber ensinamentos de outros. Quando entramos em contato com o novo a ser aprendido, fazemos com que ele passe por dentro de nós, por aquilo que já somos, que já sabemos, com o que já nos vinculamos afetivamente e, então, compreendemos a partir dos enlaces que podemos fazer. O aprendiz tece o que sabe com o que está conhecendo e amplia seus esquemas de aprender com o tecido que passa a fazer parte dos seus saberes; então, compreende e leva consigo. Por isso, não existe a pessoa que não compreendeu, e sim a pessoa que compreendeu de outra forma. No entanto, nem sempre o faz com a forma e o conteúdo que o outro espera. Esse outro, aquele que está na escola, pode considerá-lo, numa relação do “ou”, como um não sabedor.
Assim, independente se a escola for acontecer de forma presencial, virtual ou ambas, está convidada a refletir sobre dois pontos importantes, destacados a partir do conceito de “aprendência”: deverá ser uma escola voltada para o compreender e o escrever.
O compreender, como possibilidade de levar consigo o que passou a lhe pertencer; autoavaliar-se e constatar o quanto foi possível se aproximar ou afastar do que foi dito, lido ou explicado e, a partir da própria constatação, buscar em si mesmo outros elementos para ir além. Assim, o papel da escola aqui não será o de quem dá aula, mas o de quem pergunta, de quem desacomoda, de quem provoca, de quem traz possíveis articulações, de quem co-pensa, de quem media, de quem coordena.
O escrever diz respeito à possibilidade de registrar o que passou a lhe pertencer, como um ato de autoria, pois o autor só poderá escrever com autoridade sobre aquilo que leva consigo. Assim, Trocmé-Fabre (2010) utiliza-se de uma metáfora e afirma que a escola precisa promover a escrita de três livros: o livro do meio ambiente, o livro dos outros e o livro de si mesmo.
De que forma será possível pensar e fazer essa escola?
Quais mudanças precisam ocorrer no olhar para a aprendizagem e para os aprendizes; que forma de ação necessita ser implantada dentro da escola para que seja possível escrever esses três livros?
O que fazemos com os conhecimentos já construídos?
Quais elementos novos trazidos pela informática e pela tecnologia não são privilegiados na escola como aprendizagens necessárias e possíveis?

6) Aprender como transformação
Busquei uma imagem que pudesse provocar o como fazer, como transformar o discurso em ação ou mesmo como transformar as informações em conhecimentos e os conhecimentos em saberes próprios do aprendiz.
Pensei numa escola usina, a qual consiga promover essa transformação não somente a partir dos conhecimentos já produzidos e que precisam se dar a conhecer, mas a partir de questionamentos e de perguntas, como elementos principais do mecanismo de transformação. A pergunta pode nos retirar do lugar cômodo em que a história nos coloca; a pergunta faz com que olhemos para nós mesmos, para o outro, para o que já se sabe, para o caminho ainda não percorrido. Por isso, metodologias mais mobilizadoras falam de problematização e de situação problema. Freire (2001) traz para a prática educativa a problematização, ou seja, as perguntas problematizadoras, com a clara intenção de que o aprendiz seja autor, pense, argumente, faça reflexões, conheça outros pontos de vista, desconstrua algumas certezas, propondo uma compreensão ético-crítico-política da educação.
Outro educador que aborda o como fazer é Célestin Freinet; no pós-guerra, preocupou-se em criar um espaço de trabalho e cooperação na escola, visando à formação e à orientação de uma dada prática escolar. Instituiu várias ações, até hoje utilizadas em muitas escolas: a imprensa, as aulas passeio, os cantos pedagógicos, o livro da vida e outras, com a ideia de mudar a escola por dentro, pensando no papel participativo do aprendiz.
Fazendo um passeio pela história, vamos encontrar outros estudiosos, os quais desenvolveram propostas teóricas e/ou práticas que foram incorporadas pela escola em distintos momentos, em diferentes países. Muitos deles fizeram relatos importantes, com ênfase em aspectos do momento em que viveram e que podem contribuir para a escola de hoje. Citaremos, pois, alguns que fazem parte dos discursos e das práticas pedagógicos das escolas brasileiras: Maria Montessori, Jean Piaget, Levy Vigotsky, John Dewey, Antón Semiónovich Makarenko, Loris Malaguzzi, Emilia Ferreiro, André Lapierre, Rudolf Steiner, José Pacheco, Anísio Teixeira, Armanda Álvaro Alberto, Mariana Coelho.
Hoje, temos uma escola que está convidada a superar o “ou” e a fazer acontecer o discurso de uma escola para a diversidade, que precisa lidar com a complexidade das relações dos saberes e da sua aplicabilidade, das relações humanas, pessoais e profissionais; ou seja, uma escola que se encontra diante da necessidade de mudanças profundas e que precisa, no pós-pandemia como em outros momentos históricos – pós-revolução, pós-guerra –, inovar e escolher caminhos.
É preciso mudar de paradigma; em vez da Escola do “ou”, que seja possível pensar numa estrutura da escola do “e”.
Algumas contradições adotadas pela escola não cabem mais. Errar e acertar são ações esperadas em um processo de aprender; a auto-organização acontecerá de dentro para fora; o sucesso e o fracasso são valorizados na pesquisa para dar continuidade à construção de um conhecimento, de um objeto, de um recurso; a competição e a cooperação podem existir no mesmo contexto; o individual e o grupal, o objetivo e o subjetivo, o concreto e o abstrato, a formação intelectual e a formação para o trabalho de outra ordem não se opõem, e sim podem coexistir e ser complementares.
Então, como seria uma escola do “e”?
Será possível mudarmos a forma de olhar para as contradições existentes na vida?
E na Escola? Será possível desconstruir conceitos, tais como: seriação escolar, notas para níveis de compreensão, tipos de patologias e seus referidos laudos, bons e maus comportamentos?
Será possível pessoas de diferentes idades desenvolverem um projeto de aprender, juntas?

7) A escola do “e”
Como aborda Freire,

Sonhar não é apenas um ato político necessário, mas também uma conotação da forma histórico-social de estar sendo de mulheres e homens. Faz parte da natureza humana que, dentro da história, acha-se em permanente processo de tornar-se […]. Não há mudança sem sonho, como não há sonho sem esperança […].
A compreensão da história como possibilidade, e não determinismo […] seria ininteligível sem o sonho, assim como a concepção determinista sente-se incompatível com ele e, por isso, o nega. (FREIRE citado por FREIRE, 2001, p. 13).

Então, vamos nos aventurar num sonho para que possamos torná-lo possível. Certamente, o Ministério de Educação, muitas Secretarias de Educação de Estados e Municípios do Brasil e muitos Sistemas de Ensino já estão pensando nas possibilidades de mudança, de retorno às aulas. No entanto, penso que sempre é possível provocar, em um mecanismo dinâmico como o da educação, novos pontos de reflexão, novas possibilidades de pensar, fazer e ousar.
Trocmé-Fabre (2010, p. 95), a respeito da escola do Século XX, aborda:

Ignoramos que nosso cérebro é plural e que ele faz a gestão de várias temporalidades: a da sobrevivência, a da relação afetiva, a da busca do sentido. Ignoramos, principalmente, que nossa vida cognitiva constrói-se graças aos intervalos e às transições e que o vivente decide na e pelas transições.

A lógica clássica precisa ser superada, precisamos ir além do paradigma da descentração e, segundo Morin (1996), precisamos realmente fazer acontecer o paradigma de conjunção do conhecimento.
Nos estudos da transdisciplinaridade (NICOLESCU, 2000), é preciso considerar que os contraditórios, trazidos pela lógica clássica como incompatíveis, limitam-se a uma determinada área de compreensão do mundo; no entanto, ela torna-se nociva em casos complexos, como no campo social e político. Nesses casos, torna-se uma lógica de exclusão. Por exemplo: bom ou mau aluno, para homens ou para mulheres, para bem comportados ou para mal comportados, difícil ou fácil; e também outros pares de contradição ligados ao saber: sabe ou não sabe, compreendeu ou não compreendeu. Então, no campo da ação humana essa lógica contribui para a exclusão.
Vamos pensar na lógica proposta pela transdisciplinaridade, como uma lógica não contraditória, possível em situações complexas e de processo, como é a aprendizagem. Ela lida sempre com o que está por vir e, nesse sentido, é uma lógica do não contraditório: não sabe até aqui, mas pode vir a saber; não se comportou nessa situação, mas pode aprender e conhecer melhor as características desse contexto; compreendeu a partir das suas referências; e assim por diante.
Sonhar com uma escola que promove o aprender a pensar e a trabalhar; que prepara para falar, argumentar e escrever; que possibilita assistir e discutir, escutar e argumentar, aprender nos livros, no cinema, no parque, no museu, na panificadora, numa aula expositiva, na cozinha da escola… Aprender com a fala e com o silêncio, individualmente e em grupo, com o adulto e com a criança, com os conhecimentos já construídos e com os que são emergentes; numa escola que aprenda com o passado; que coloque o conhecimento a serviço das necessidades do presente; que projete o futuro…
Nesse sentido, o convite para reflexão é: Vamos conhecer as raízes e alçar voo, não para fugir, mas sim para criar novos problemas e novas soluções a serviço da vida, da nossa casa, dos saberes existentes e daqueles que estão por vir.
É possível? Quem poderá nos impedir?
Quais são as nossas necessidades agora, nesse tempo pós-pandemia?
O que conservar e o que mudar?
Qual é o papel da escola hoje?
Que escola ocupará o espaço daquela que estava aqui?

Referências

BARROS, V. M. de. Alteridade: autonomia ou ontonomia? In: FRIANÇA, A. et al (Orgs.). Educação e transdiciplinaridade III. São Paulo: TRIOM, 2005. p. 107-172.
FREIRE, P. Pedagogia dos sonhos possíveis. Ana Maria Freire (Org.) São Paulo: Editora UNESP, 2001.
GUATTARI, F. Caosmose: um novo paradigma estético. Tradução: Ana Lúcia de Oliveira e Lúcia Cláudia Leão. Rio de Janeiro: 34, 1992.
MATURANA, H. R. Conversações matrísticas e patriarcais. In: MATURANA, H. R.; VERDEN-ZÖLLER, G. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano do patriarcado à democracia. Tradução: Humberto Mariotti e Lia Diskin. São Paulo: Palas Athena, 2004. p. 29-115.
MATURANA, H. Transdiciplinaridade e cognição. In: NICOLESCU, M. et. al. Educação e transdisciplinaridade. Tradução: Judite Vero, Maria F. de Mello e Américo Sommerman. Brasília: UNESCO, 2000. p. 83-114.
MORIN, E. Problemas de uma epistemologia complexa. In: _____. et al. O problema epistemológico da complexidade. Lisboa: Europa-América, 1996. p. 13-34.
NICOLESCU, B. Um novo tipo de conhecimento – transdisciplinaridade. In: NICOLESCU, M. et. al. Educação e transdisciplinaridade. Tradução: Judite Vero, Maria F. de Mello e Américo Sommerman. Brasília: UNESCO, 2000. p. 13-29.
PAÍN, S. Diagnóstico e tratamento dos problemas de aprendizagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.
SERAFINI, A. Z. et. al. O ambiente educativo: é possível torná-lo extraordinário? In: PORTILHO, E. M. L. (Org.) Formação continuada na educação infantil: outros olhares sobre as crianças e as infâncias. Curitiba: Appris, 2015. p. 113-127.
TROCMÉ-FABRE, H. Reinventar: o ofício de aprender, o único ofício sustentável atualmente. São Paulo: Triom, 2010.
TROCMÉ-FABRE, H. A árvore do saber-aprender: rumo a um referencial cognitivo. São Paulo: Triom, 2004.
VISCA, J. Clínica psicopedagógica: a Epistemologia Convergente. 2. ed. Tradução: Laura Monte Serrat Barbosa. São José dos Campos: Pulso, 2010.
VISCA, J. Mosaico psicopedagógico. Textos e reflexões. Organização: Raquel Kielmanowicz e Laura Monte Serrat Barbosa. Tradução: Laura Monte Serrat Barbosa. São José dos Campos: Pulso, 2015.

Dificuldades de aprendizagem – Ela existe?

Depende do lugar do qual se concebe o que deve ser aprendido?

Depende da história do aprendiz?

Depende do interesse que, o que deve ser aprendido, desperta?

Uma vez eu vi um filme que contava a história de um menino inteligente, filho único de um casal, se saía bem na escola e respondia acertadamente às tarefas que a escola pedia. Um dia ele ficou perdido numa floresta, após a morte de seus pais num passeio de férias.

Esse menino não sabia nada de floresta! Não sabia distinguir as frutas comestíveis das venenosas, não sabia pegar um peixe para se alimentar, não sabia se defender dos pequenos animais, não sabia ter a mão leve para poder pegar um alimento sem ser percebido… Ele surtou… Certamente se o levassem para uma avaliação de aprendizagem naquele momento ele seria identificado como um quadro grave de transtorno mental… Nem o próprio nome ele sabia, mais!

No entanto, no caminho ele encontrou um senhor que estava retornando à sua casa de infância para morrer, tinha uma doença que estava em fase terminal.

O menino queria a proteção dele e ele sabia que se fizesse tudo por ele não aprenderia e acabaria morrendo naquele lugar sem conseguir voltar para cidade. 

Aí começa um verdadeiro processo de aprendizagem diante das dificuldades que aquela situação proporcionava.

Aquele menino estava diante de uma verdadeira dificuldade para aprender! Sentia todos os medos e ansiedades que aquela situação apresentava, queria a proteção de um adulto que não podia exercê-la, mas que generosamente foi possibilitando que ele aprendesse vivendo suas dificuldades.

As lições ele aprendeu – A primeira é que ele precisava saber quem era, qual o seu nome para ter a companhia daquele homem no qual via uma possibilidade de proteção;

A segunda lição – aprender a pescar com a mão para não assustar os peixes – e comer apenas aquilo que ele mesmo conseguia conquistar; 

Defender sua caça dos aborígenes;

Conversar com a natureza para poder obter o alimento que precisava e caçar o exclusivamente necessário para sobreviver;

Aprendeu que a vida não é um ensaio para o amanhã…

Viver experiências sendo mediado por alguém que saiba, sem ser roubado da possibilidade de enfrentar os desafios. 

Não sei se existe a dificuldade de aprendizagem, mas certamente existe a dificuldade para a aprendizagem. Ninguém aprende o que já sabe, e para aprender o que não se sabe a dificuldade se faz presente. 

Do ponto de vista da Escola da Cidade aquele menino não apresentava uma dificuldade de aprendizagem; mas do pondo de vista da escola da floresta aquele menino apresentava muitas dificuldades de aprendizagem. 

As dificuldades podem ser decorrentes de obstáculos de caráter cognitivo; de caráter afetivo; de caráter cultural; ou resultantes do funcionamento de um aprendiz. Todas essas dificuldades decorrem de uma série de interações destas dimensões que vão acontecendo na história do aprendiz… Por isso digo que as dificuldades existem, mas é justamente por causa delas que podemos aprender… Ou nos entregar ao não saber! O caminho a ser tomado depende, também, da mediação, da intervenção e da visão daquele(a) que media!

Sobre Viver e Morrer

Há momentos em que temos muito pouco a dizer.
Embora, se espere de nós educadores, alguma palavra… Ela é muito difícil de ser dita.

Diante da crueza com que as mortes no mundo estão ocorrendo e com a mesma crueza que estão sendo divulgadas, me pergunto: O que estas mortes significam neste momento da caminhada humana? Em todos os lugares do mundo, apesar de anos de civilidade, encontramos pessoas matando pessoas, pelos mais diversos motivos; e pessoas colocando sua vida em risco, também por motivos variados. Vivemos em constante contradição! A contradição faz parte da vida humana, da nossa vida, porém, quando ela é congelada nos seus opostos há muito pouco a ser feito e então nos resta apenas duas possibilidades: viver ou morrer; e, se quiserem de outro ponto de vista, matar ou morrer. Temos aprendido durante toda a História da Humanidade que os opostos, as diferenças, a diversidade podem resultar em transformação. A tese e a antítese podem produzir uma síntese e a síntese será sempre um avanço em relação à tese e à antítese. Podemos escolher morrer defendendo a “nossa” tese…

Podemos escolher morrer defendendo “nossa” antítese… Podemos escolher não produzir articulações possíveis em direção à vida.
Durante toda a História da Humanidade nos deparamos com vários momentos em que temos que assumir um lado, lutar pelas ideias que representam aquele lado, até às últimas consequências. Isso é louvável, porém dependendo da forma como o fazemos alimentamos a cristalização dos opostos: riqueza/pobreza; feminino/masculino; poder/submissão; ter/ser; bem/mal; alegria/tristeza; rapidez/lentidão; ganhar/perder e tantos outros ouvidos a todo instante nos poucos diálogos que conseguimos produzir e em todas as ofensas e humilhações que conseguimos fazer quando assumimos um dos lados, sem, em nenhum momento, poder se colocar no lugar do outro. Chegou a hora de considerarmos esses aparentes opostos como unidades que fazem parte de nós como indivíduos e dos contextos dos quais fazemos parte. Todos, temos contidos em nós, o bem e o mal; todos os contextos e situações possuem aspectos positivos e negativos. Todos, temos um pouco de vítimas e um pouco de algoz. Todos, podemos assumir o poder, ou nos submeter e assim por diante…
Depende, também, do complexo movimento em que estamos mergulhados. Quando percebermos que vida e morte fazem parte de uma mesma unidade podemos buscar entender o que as mortes, em excesso e desnecessárias, no mundo atual podem significar. O que estas mortes representam? O que elas querem nos dizer? O que a vida humilhada, desgastada, desrespeitada, desafiada a cada notícia, a cada conquista perdida pode significar? Jogos são formas simbólicas que nos ajudam a entender o movimento da vida, principalmente aqueles que não compreendemos de pronto. Desde os primórdios da humanidade eles nos ajudam a compreender, também, a relação entre viver e morrer. Muitas vezes, ajudam a articular os elementos desta contradição e outras vezes, conforme são apresentados e vivenciados, ajudam a fazer a manutenção desta contradição. E assim vamos aprendendo coisas do tipo: se mato, vivo e ganho o jogo; se morro é porque esse era o destino por ter sido fraco e submisso e por não saber me defender, e perco… E se matar o outro é inconcebível, então me mato.

Assim, se delineia no horizonte dos jogos o jogo da Baleia Azul, um jogo no qual ganha quem morre, não simbolicamente, mas concretamente. A minha pergunta é: O que este jogo quer simbolizar no contexto mundial? Quando eu escolho sair da contradição ganhar ou perder para viver a unidade ganhar/perder ao mesmo tempo? Ganho o jogo e perco a vida… Ou seja, para ganhar o jogo coloco minha vida em risco. Estamos vivendo uma crise de autoridade em todos os níveis. As crianças estão cada vez mais longe de seus pais, em creches e escolas que abrem das seis horas da manhã à noite; nossos governantes, desgovernados parecem estar jogando o jogo da Baleia Azul com todos nós. Colocam-nos desafios diários e não deixam saídas. Perdemos nossos empregos e não conseguimos outros; somos substituídos por máquinas e ficamos subtraídos da nossa possibilidade de fazer… De ganhar… De produzir… E de amar. Ficamos reduzidos a assistentes dos mecanismos corruptos de enriquecimento, muitas vezes, sem poder consumir o básico por falta de condições dignas, anteriormente obtidas por meio do trabalho. Sem trabalho, sem dinheiro, sem condições de novas atividades, num mundo capitalista, sem horizontes, resta-nos enlouquecer ou nos revoltar. Será isso que este jogo deseja nos mostrar? Talvez as mortes dos imigrantes, impedidos de circular pelo mundo, de se defender, de buscar novas saídas; as mortes dos filhos da ditadura coreana e outras tantas; de sírios e judeus que lutam incessantemente por terras que os identifiquem como cidadãos do mundo; daqueles que experimentam fenômenos da natureza arrebatadores; daqueles que roubam para alimentar seus filhos; daqueles que se subjugam ao tráfico; e outras tantas, possam ser compreendidas como diferentes fases de um grande jogo que vem nos lembrar o quão importante é a compaixão, a convivência, o cuidado amoroso, como disse Isabel Parolin no dia 19/04/2017 nas redes sociais, e a Ética de ser Humano. Falta-nos algo que perdemos pelo caminho, mas que poderemos reconquistar – o Amor como resultado da articulação entre os opostos. Não é preciso perder vida para articulá-los. Temos que entender que enquanto lutamos para congelar opostos não abrimos espaço para o entendimento. Não se trata disso ou daquilo; de viver ou de morrer; de ser rico ou ser pobre; trata-se do caminho que existe entre os dois pontos e da possibilidade de chegarmos a um terceiro ponto que não seja nem “isso”, nem “aquilo”, mas que contenha “isso” e “aquilo” transformado em anúncio de algo melhor para TODOS!

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