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28 de maio de 2020

Simone Carlberg

O Relógio

Vinicius de Moraes

Passa, tempo, tic-tac

Tic-tac, passa, hora

Chega logo, tic-tac

Tic-tac, e vai-te embora

Passa, tempo

Bem depressa

Não atrasa

Não demora

Que já estou

Muito cansado

Já perdi

Toda a alegria

De fazer

Meu tic-tac

Dia e noite

Noite e dia

Tic-tac

Tic-tac

Dia e noite

Noite e dia

Poema suave que nos remete ao universo infantil, talvez de outros tempos. Escrito por Vinícius de Moraes, publicado na década de 70 e também musicado. E, para o leitor que conhece a melodia, é possível ler cantando.

Foi escolhido como uma provocação inicial para pensarmos sobre tempo e sobre o tempo atual em distanciamento social.

Tempo como duração dos fatos (momentos, períodos, épocas, horas, minutos, segundos, dias, semanas, meses; passado, presente, futuro); tempo como momento atmosférico (outono, inverno, primavera, verão; temperatura; velocidade…).

Formulei a seguinte pergunta: o que é tempo para você?

Conversei com algumas pessoas e encontrei respostas interessantes como estas:

TS., um garoto de 3 anos, depois de formulada a pergunta, arregala os olhos e após um longo silêncio, diz: “não sei!”

Para T. uma garota de 8 anos “o tempo é… o tempo é… quando o sol nasce e se põe; quando os ponteiros do relógio batem meio dia; quando nós acordamos e dormimos, quer dizer, quando dormimos e acordamos no outro dia.”

E agora, em tempos de pandemia, o que você pensa sobre o tempo? Você pensa algo?

“Sim!  Parece que agora passa mais rápido, porque a gente não sai de casa!”  

Para J., uma jovem de 16 anos “o tempo… é algo incontrolável… O relógio marca a nossa rotina, estabelecida pelo ser humano. E o tempo de vida que a gente tem, é incontrolável! É um ciclo que ninguém tem controle, todo mundo passa, é geral e todos têm receio, já que não volta para trás, é sempre para frente e está envolvido com arrependimento, com vontade de aproveitar muito, cada vez, cada segundo.”

E agora, em tempos de pandemia, o que você pensa sobre o tempo?

 “Mudou! Principalmente em relação à rotina, muda tudo, a gente se enquadra numa rotina totalmente diferente…como o ser humano é controlável e manipulado, né? Alguém disse que era para usar máscara, e usamos! Alguém tem poder sobre tudo… Senti muito isto… me adaptar a fazer tudo dentro de casa. Mudou muito minha relação com meus pais e irmã, acho que foi bom até! Porque na rotina a gente perde tempo com outras coisas. Agora é ficar quieto.”

Entre os adultos consultados encontrei as seguintes reflexões:

“tempo é o espaço que determina a duração dos acontecimentos” (A. 59a);

“tempo são acontecimentos que geram em nós sentimentos, emoções, experiências e aprendizado. Tempo é muito relativo.” (S. 60a);

“para mim, o tempo é a contagem da vida. E, geralmente, ele vem com uma outra palavra junto: sem tempo; muito tempo, longo tempo, tempo curto, principalmente nessa pandemia.” (G. 60a);

“nesse momento de quarentena, desde 17 de março, praticamente isolada, mas nem tanto… tenho conseguido um tempo para me dedicar mais às artes. Aquele tempo que não passa, demoooora, e a gente consegue pensar, usufruir, refletir e devanear. E que tempo esse maravilhoso que ganhei e posso usá-lo de uma forma que nunca me permiti. O tempo parou e me fez frear também, bruscamente.” (V. 59a).

E no meu (da autora) tempo de pandemia, em minha rotina, está incluída a leitura e/ou a releitura de várias obras e, dentre elas, um livro de entrevistas cujo título é: Sobre o Tempo, organizado por Andréa Bomfim Perdigão e publicado em 2010. São 21 entrevistas com perspectivas diferentes a respeito do conceito de tempo, como por exemplo a compreensão de que “O tempo “é”, e nós estamos inseridos nele. Tanto é que nós não o sentimos passar, justamente porque nós é que fluímos dentro dele. Ele é um parâmetro dentro de uma métrica.” Maria Cristina Abdalla, Física (p.232).

Em outro livro, leio as palavras de Jean Piaget, pesquisador do processo da construção do conhecimento humano que, em um dos seus livros, A Construção do real na criança (1963) escreve sobre o tempo: “… o tempo supõe o espaço, pois que o tempo nada mais é do que uma relacionação dos eventos que o preenchem…” p. 298 e, ainda:

“O tempo confunde-se, pois, no seu ponto de partida, com as impressões de duração psicológica inerentes às atitudes de expectativa, de esforço e de satisfação, em resumo, à atividade do próprio sujeito.” P. 299

Bem, seja lá qual for o conceito, ou a compreensão de tempo que cada um de nós formula, o que há de comum é o processo vivido em um tempo histórico determinado, em um espaço geográfico e também, por que não dizer, em um tempo/espaço simbólicos.

Tempo é pro-ces-so que inclui o movimento de aprendizagem que gira como os ponteiros de um relógio, compondo não apenas uma forma circular, mas uma espiral tridimensional (imaginação minha) onde a cada giro é possível acessar o conhecimento anterior para sustentar o que está por vir.

E, é neste conhecimento anterior que podemos encontrar as experiências, as referências cognitivas, afetivas e sociais que poderão dar suporte aos processos de tomada de decisão que envolvem a atual condição humana.

Vivemos um tempo de decisões.

O tempo não para! Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo… Mário Quintana

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