Informação não é experiência
03 de abril de 2020Laura Monte Serrat Barbosa

Há quase três meses, estamos recebendo informações, muitas informações… Chegamos ao ponto de recomendar, para si mesmo, assistir a apenas um jornal ao dia e a poucos vídeos, ler umas poucas mensagens no celular. Chegamos à exaustão, uma verdadeira intoxicação eletrônica!
Então, fiquei pensando em nossos alunos, nas pedagogias que se pautam na informação, e que não oferecem a experiência ou a possibilidade de reelaboração da experiência que, porventura, os alunos viveram em outros lugares; que não oferecem espaço para a articulação da experiência com o conhecimento já existente, nem oportunidade para o tecido de novos conhecimentos.
É informação atrás de informação, e também testes para ter certeza de que a informação foi captada. É muito cansativo para os aprendizes, assim como está sendo para nós. No entanto, para os aprendizes na escola, não há possibilidade de desligar a informação na hora do cansaço, nem a opção de escolher em quais informações focar, para transformá-las em conhecimento e em sabedoria, trançando-as com tudo o que já experimentaram em suas vidas.
Nesse sentido, podemos pensar que uma nova pedagogia precisa considerar a experiência, além do experimento. A informação não é experiência, e o excesso de informação cancela a possibilidade da experiência; a informação é a experiência do outro, e não aquela que passa por aquele que a vivencia.
A experiência produz um saber, para além da informação, e é cada vez mais rara nesta época, na qual se confunde informação, conhecimento e aprendizagem. Quando nos informamos, emitimos opiniões sobre tudo, pensamos que dominamos aquele conhecimento; essa atitude de opinar, porém, também cancela as nossas possibilidades de experiência. Julgamos o outro, e não vivemos.
A experiência tornou-se raridade nos dias de hoje, e isso se deve, também, à questão tempo. O ritmo com que as informações são dadas, e logo substituídas por outras, torna nossa vivência instantânea, útil somente para aquele momento e, certamente, desconectada do que já sabemos e do todo do qual ela faz parte. O excesso de velocidade com que as vivências acontecem resulta na falta de silêncio e de memória, que também pode inibir a experiência.
Outro fator que torna a experiência rara é o excesso de trabalho; é a crença de que o sujeito de hoje precisa estar em movimento o tempo todo, produzindo, em ação constante, o que nos torna hiperativos e pouco disponíveis para parar e perceber o que nos passa, o que nos toca e o que nos acontece, isto é, o que de fato passa por dentro de nós.
A quarentena proposta com a chegada de um estranho ao mundo está nos convidando a receber muitas informações, gerando um cansaço que pode levar à irritação e a uma experiência distinta daquela que gostaríamos.
Assim, nesse momento de convivência em família, além de selecionar as informações que receberemos, e de decidir em quais delas vamos nos focar, precisamos nos organizar, promover espaço para a experiência tanto do grupo familiar, quanto individualmente. É preciso refletir sobre as informações, conversar sobre elas, posicionar-se; é preciso organizar o tempo, de tal forma que haja momento para as memórias, para o lúdico, para o silêncio, para o compromisso e para o descanso.
A experiência possibilita distintos sentimentos, novos saberes e compromete-nos em relação ao mundo que habitamos, à nossa responsabilidade. Assim, neste momento de pandemia, não podemos só assistir informações, mas precisamos fazer, avaliar, digerir, refazer, ler, reler, pensar, refletir, repensar, conversar… Precisamos cuidar das formas de viver e conviver, transformando o jeito de aprender e ensinar!
Texto embasado nos estudos de Jorge Larrosa
