Aprender A Aprender
14 de novembro de 2019Vera Lucia Germano Sicuro

A família é a primeira instituição na qual a criança aprende sobre si, sobre o mundo e o seu lugar nele e também sobre os afetos entre as pessoas que a compõem. Este grupo tem valores e normas estabelecidos os quais dão a seus membros a condição de pertencimento. Frequentemente os grupos familiares tentam afastar ou esconder, por meio de vários mecanismos, comportamentos e fatos que não estejam de acordo com o ideal de família que mantêm para si e para os outros, pois é difícil lidar com o que foge à regra, com o imprevisto ou o diferente.
Em cada família a vinda de um bebê é cercada de expectativas, quanto as características físicas, comportamentais, entre outros aspectos relativos ao próprio bebê, e dos pais em relação a seus papéis após o nascimento. Estas expectativas nem sempre se concretizam, havendo necessidade de a família superar a frustração e aprender a lidar com a realidade para acontecer o que chamamos de legitimação do filho.
Ao falar sobre isso, faço referência ao processo de inclusão, tão falado e valorizado atualmente e me pergunto se as famílias estão conseguindo realizá-lo com seus próprios membros. Será que existe coerência entre o discurso e a prática na vivência familiar?
Fazem parte das tarefas em relação às crianças a proteção e o cuidado, pois nenhuma criança deve ficar à deriva. Acredito que neste tempo de rápidas e intensas mudanças, uma das formas de cuidar e proteger os filhos é auxiliá-los a aprender a aprender, que segundo BARBOSA (2006), em seu livro A Psicopedagogia e o momento de aprender, é aprender a pensar, a construir conhecimento a partir dos conhecimentos já construídos; a usar a aprendizagem como uma ferramenta para outras aprendizagens; a aprender de forma dinâmica, para poder aprender outras coisas que acontecerão na vida futura. Para ela, aprender a aprender é instrumentar-se, mas sem esquecer que, embora a aprendizagem aconteça dentro de cada aprendiz, ela é possibilitada na interação deste aprendiz como o mundo no qual está inserido, e com o conhecimento já estruturado.
A revolução de costumes na metade do século XX acarretou uma série de mudanças na estrutura familiar e muitos questionamentos quanto à educação das crianças. Antes, teríamos segurança em afirmar que os papéis estavam muito bem definidos. Imperava, via de regra, um modelo patriarcal, onde o pai era o provedor, trabalhava e supria as necessidades materiais da família; a mãe era a encarregada da educação dos filhos, de fazer circular o afeto e de realizar as tarefas da casa ou providenciar que o fossem; aos filhos cabia obedecer, tinham pouca voz ativa. Havia muito pouco questionamento deste modelo, apesar de que nem sempre as coisas funcionavam da maneira esperada.
Com frequência, na família, outros parentes estavam próximos: avós, tios e outros que além de servirem de modelo, muitas vezes contribuíam diretamente na educação das crianças.
Atualmente temos inúmeros modelos familiares, as famílias reconstruídas, as monoparentais, as homossexuais, as adotivas, só para citar alguns. A divisão de papéis e funções depende de muitas variáveis, desde características pessoais a disponibilidade de tempo, entre outras. A convivência com as famílias de origem nem sempre é possível, e a rede de apoio muitas vezes é feita por amigos, vindos de famílias com crenças e valores diferentes. Cada vez mais, existe a necessidade de revisão dos sistemas de crenças familiares no que se refere a escolhas e adaptações.
As mudanças e os questionamentos trouxeram algumas certezas e geraram muita insegurança. Se por um lado os pais sabem que não querem mais a distancia anterior entre pais e filhos, por outro correm o risco de serem amigos ao invés de pais amigos. Não querem mais a rigidez das regras e nem os castigos físicos, mas percebem como é difícil “flexibilizar” sem ser permissivo demais, sem supervalorizar o prazer imediato; estabelecer diálogo sem perder a hierarquia, conversar para esclarecer e trocar ideias e não somente para punir.
Nesta tentativa de criar um novo modelo educacional, os pais muitas vezes abrem mão de seu papel de educadores. Deixam de colocar limites, de ajudar seus filhos a aprender a lidar com a frustração, mola propulsora para buscar novas soluções; se antecipam a suprir todos os desejos de seus filhos, esquecendo de ajuda-los a sentir a falta para poderem ter desejos e irem à busca; a pensar sob outros pontos de vista; a respeitar as diferenças, os limites e o tempo do outro e muitas vezes o seu próprio, características necessárias para a socialização, a cooperação e o desenvolvimento da ética. Vivemos em um tempo em que o compromisso com o sucesso é tão grande que muitas vezes não se tenta o novo para não correr o risco de errar e os pais se esquecem de ensinar que é por meio do enfrentamento do erro e do reconhecimento do não saber que se promove a aprendizagem e a segurança da potência. Parece que vivemos no tempo do instantâneo, sem tempo para esperar, refletir sobre o que ensinar aos filhos, como o fazer e que resultados estão sendo obtidos. Mas educar é um processo contínuo que envolve investimento de tempo, energia e afeto, no qual se ensina e se aprende a todo o momento.
