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CADÊ A ESCOLA QUE ESTAVA AQUI?

24 de julho de 2020

Laura Monte Serrat Barbosa

Passeando pela história da Escola, auxiliada por José Pacheco, em suas cartas denominadas Novas Histórias do Tempo da Velha Escola (CL) (2020), por Mário Aliguiero Manacorda, em sua obra História da Educação – da Antiguidade aos Nossos Dias (1989), e por tantos outros autores que se propõem banir o vírus do instrucionismo, encontrei muitas escolas, com distintos formatos, com origem no exercício militar, mais tarde associadas aos conventos e aos ideais iluministas.

No Egito Antigo, também ideias que sustentam a Escola de hoje estavam presentes: além de uma Escola que nasceu para preparar jovens para a guerra, ou para a vida religiosa, já existia um conceito de educação instrucionista, intelectual, como privilégio de poucos, e de educação para o trabalho, como destino de muitos. Essa dicotomia permaneceu em muitas reformas educacionais mundo afora. Os livros e os ensinamentos literários foram supervalorizados, em detrimento do trabalho que gerava um esforço físico, ideia que ainda prevalece no mundo acadêmico de hoje.

Nos registros referentes à formação dos escribas, os privilegiados da Antiguidade, por exemplo, há aspectos comuns a muitas escolas presentes no Século XXI. Acompanhem um registro trazido por Manacorda, encontrado em uma coletânea intitulada Jornada do Aluno Diligente:

Vem! Descrever-te-ei o comportamento do escriba, quando se diz: Depressa! Para o teu lugar! Os teus colegas já estão fixos nos livros. Não sejas preguiçoso! Ora dizes: Três mais três. Ora lês, diligentemente, no rolo do papiro. Ora deves fazer os cálculos em silêncio, e que não se ouça a voz de tua boca. Escreve com a mão e lê com a boca. Pede conselho. Não sejas negligente, nem passes um dia na ociosidade; senão, ai do teu corpo! Segue os métodos do teu mestre, ouve seus ensinamentos. Sê um escriba. Eis-me aqui, dirás sempre que te chamem. Cuida de nunca dizer: Ufa! (MANACORDA, 1989, p. 33-34).

Comportamentos como ficar em silêncio, obedecer ao mestre, dizer o que ele pede, resolver problemas já resolvidos, dar a resposta esperada e dizer o que o outro deseja ouvir para não sofrer uma repreensão, ainda se encontram presentes na forma de educar de muitas escolas.

A História da Educação ensinou e ensina até hoje como é importante privilegiar o saber, em detrimento do fazer da experiência. Na História da Educação, muitas escolas buscaram superar essa dicotomia; às vezes, ele foi superada na sua organização física, nem sempre foi transformada de fato.

Saberes construídos pela Humanidade só fazem sentido se consonantes com o momento da história que é vivido. No entanto, ficamos com registros no inconsciente coletivo, a respeito do papel e da função da escola, os quais parecem não fazer mais sentido nesse século: uso de quadro negro e de telas, ensino frontal, como se todos os alunos fossem um só e pudessem aprender ao mesmo tempo, no mesmo ritmo, da mesma forma, com a mesma compreensão. Provas como forma de avaliação do saber, que incentivam a classificação e a competição, e tantas outras coisas.

Apesar de todos os esforços para atualizar a escola, temos sempre algo mais a fazer, a pensar, a propor, pois a escola não é o prédio, e sim a instituição responsável pela articulação do saber e do fazer, pela atitude investigativa, pelo aprender em grupo e no grupo, pela valorização da coletividade, da cooperação e da aprendizagem.

Aprender e ensinar, objetivo da escola, é da ordem do inusitado, e reproduzir saberes, hoje, não é suficiente para que os seres humanos evoluam como integrantes da natureza, como cuidadores de sua casa – a Terra –, como pessoas de relação, e merecedoras da igualdade, e como fazedores de história.

Aprender a resolver problemas artificiais, postos pelos outros, não faz mais sentido. Hoje, aprender tem a ver com criação de problemas e busca de soluções, ambos nascidos no movimento da vida e sustentados na construção dos saberes da Humanidade, como ferramenta, e não como objeto de reprodução.  

O movimento que a vida está trazendo para o planeta, em 2020, convida a pensar e a responder algumas perguntas: Cadê a escola que estava aqui, de período integral, que permitia a intensificação das horas de trabalho e que possibilitou valorizar mais o trabalho do que a convivência? Cadê a escola que estava aqui, reconhecida como um negócio no mundo capitalista? Cadê a escola que estava aqui, detentora de um pretenso “todo saber”, que se resumia a apenas algumas áreas do conhecimento? Cadê a escola que estava aqui, entendida como responsável pela instrução de crianças e jovens? Cadê a escola que se propôs a fazer o papel dos pais?

A impossibilidade do funcionamento das escolas em seu espaço físico faz pensar sobre o que colocar no lugar dessa escola que estava aqui que, apesar de tantas transformações ao longo da história da Humanidade, ainda se parece, em muitos aspectos, com a escola militar na Prússia, a confessional na Europa e a dos escribas no Egito Antigo.

E agora? Talvez o convite seja para integrar – ao espaço externo do mundo, aos espaços internos das pessoas e aos espaços de relação – um espaço de aprender que já vinha sendo explorado, mas sem tanta intensidade: o espaço virtual; e, ao mesmo tempo, o convite seja para se cuidar com a intoxicação eletrônica. Não se trata de trocar de espaço para continuar instruindo, mas de articulá-lo aos outros espaços, para construir um novo jeito de aprender e ensinar, priorizando a pesquisa, a criação e as relações de aprender juntos, coletivamente!

Referências

MANACORDA, M. A. História da Educação. Da Antiguidade aos nossos dias. São Paulo: Cortez, 1989.

PACHECO, J. Novas histórias do tempo da velha escola (CL).2020. Disponível em:

https://ecohabitare.com.br/novas-historias-do-tempo-da-velha-escola-cl/. Acesso em: 07 jul. 2020.

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